segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Eles são os soldadinhos da vergonha


Foram duas as vezes que o Movimento Que Se Lixe a Troika tentou convocar a comunicação social para apresentar publicamente o protesto que decorrerá no próximo Sábado em várias cidades, um pouco por todo o país. Em vão. A comunicação social boicotou (1) e não compareceu. À terceira, porém, foi de vez. O movimento simulou uma manifestação de apoio e agradecimento à troika por toda a ajuda que tem prestado a Portugal e aos portugueses. E a comunicação social compareceu, desta vez em peso e com todo o aparato. Para mostrar quem serve. Para mostrar de que lado está. Para confirmar a sua relação umbilical com os poderes que a usam a seu bel-prazer para capturar o que resta desta democracia. Têm-na nas mãos posta por um exército de colaboracionistas que tem o poder de comandar as percepções. O que não é notícia é como se não acontecesse. Os soldadinhos da vergonha. Eles decidem o que acontece. E o que não é para se saber. 


(1) Sobre a forma como se processou este boicote, corrijo a informação republicando abaixo os comentários que duas pessoas ligadas à organização tiveram a amabilidade de deixar no meu facebook:

Rita Veloso: "Aliás, e precisando, a comunicação social também apareceu nas duas tentativas anteriores. Mas depois a informação da manif não saiu. As notícias referiam apenas protestos pontuais e não a conferência de imprensa associada ao protesto ou a manif que o motivava."

Cristina Paixão: "Por outro lado, completando a intervenção da Rita, já o anúncio desta "falsa" manifestação apareceu (foi publicado/ noticiado) em todos os orgãos da comunicação social. Rádios incluídas. E com o mínimo esforço dos "organizadores"."

O segundo resgate


O ministro da Economia, António Pires de Lima, garantiu nesta segunda-feira em entrevista à Reuters que o Governo quer negociar um segundo resgate com Bruxelas e que o executivo conta começar as negociações deste programa nos primeiros meses de 2014. Chamou-lhe “plano cautelar”, tal como chama “ajustamento” à destruição do país e “poupanças” aos roubos sucessivos do seu Governo. A questão semântica do costume. Senão, vejamos: qual é coisa, qual é ela, um empréstimo que tem associado um pacote de medidas de mais austeridade? Não, não é o regresso aos mercados. E também não é o regresso ao crescimento. É o prémio de um povo mansinho que deixou que andassem três anos a brincar com o seu país.

Vagamente relacionado: Francisco Louçã começou a sua intervenção na conferência “O Estado e a Economia”, promovida pela Antena 1 e pelo Diário Económico, a questionar se “a continuação de um resgate sob a forma de um programa cautelar é conveniente, se é uma estratégia de crescimento, e, se for, se é sustentada”. Respondeu logo que não e apresentou depois vários dados estatísticos para basear a sua opinião. “Todos os anos, a queda do Produto [Interno Bruto, PIB] foi muito mais acentuada do que o que estava previsto em função da estratégia de consolidação”, analisou, apresentando as expectativas de evolução do PIB feitas no memorando e as que efectivamente se verificaram. Na evolução do desemprego, “os resultados são ainda mais impressionantes”. “No programa da troika, o agravamento do desemprego foi mais do dobro do que se tinha previsto antes de se iniciar este programa”, constatou, recordando que para 2012, por exemplo, estava previsto que o desemprego crescesse um ponto percentual e ele subiu 4,2 pontos.

Para onde vão os seus impostos?

Em 2014, uma pessoa com um salário de 800 euros contribuirá quase tanto para pagar dívida como aquilo que contribui para o SNS (21 euros)


Sabe para que servem os seus impostos? Onde são aplicados? Este site demonstra, recorrendo a gráficos, como os sucessivos Orçamentos de austeridade fizeram com que impostos que antes pagavam serviços públicos e demais direitos sociais paguem agora juros agiotas e o enriquecimento de outros parasitas da nossa sociedade. A austeridade é esta transferência de riqueza e a destruição do país e de milhares de vidas., o enriquecimento de uma minoria à custa da restante maioria e de um retrocesso civilizacional do qual levaremos tantos mais anos a recuperar quanto mais tarde conseguirmos ver-nos livres do seu garrote.

De acordo com os dados da segunda notificação do défice e da dívida publicados nesta segunda-feira pelo Eurostat, a dívida pública portuguesa passou de 94% do PIB em 2010 para 124,1% em 2011, um acréscimo de 30,1 pontos percentuais que supera os 26,2 pontos registados pela Irlanda, os 25,3 pontos de Chipre e os 24,3 pontos de Espanha. O único país da zona euro onde a dívida caiu durante este período foi a Alemanha. Portugal foi o país da zona euro onde o rácio da dívida pública em percentagem do PIB mais se agravou entre o final de 2010 e 2012.

Sobre os "mas"


«Juro fazer cumprir a Constituição, mas só se não for muito caro. O Presidente da República não pergunta se “o orçamento é constitucional”. O que ele pergunta é se os custos de o considerar inconstitucional são ou não superiores aos de fechar os olhos à inconstitucionalidade. Para ele a substância da questão não interessa. O Presidente da República, para nossa desgraça, é economista. Um daqueles economistas que aprendeu que uma ação é boa se os seus benefícios são superiores aos seus custos, que a melhor ação de todas é aquela que proporciona um maior rácio entre benefícios e custos e que fez disto uma máxima moral que orienta toda a sua (muitas vezes triste) conduta. Assim se compreende que o Presidente transforme o juramento que fez numa questão de cálculo.

Será que o Presidente quando promete qualquer coisa aos amigos, aos filhos ou à primeira-dama, pensa sempre de si para si “sim, mas só se os custos de cumprir a promessa não forem superiores aos respetivos benefícios”? Não deve ser fácil viver com alguém assim. Felizmente, para a generalidade dos juristas a máxima moral em que o Presidente e muitos economistas acreditam é repugnante. Felizmente, porque a recusa dos juristas em violar princípios tende a espevitar a imaginação. A possibilidade de uma recusa do Tribunal Constitucional a normas fundamentais do orçamento até já fez com que um banqueiro que prefere tosquiar as ovelhas a esfolá-las vivas recomendasse ao Governo um plano B em caso de veto: suspender os pagamentos das PPP durante o tempo que for necessário. Ora aí está. É um bom começo. Espevitem lá um pouco mais a imaginação.» José M. Castro Caldas, no Ladrões de Bicicletas.

 

«A separação de poderes é muito bonita. Mas devemos pedir desculpa por ela porque precisamos do dinheiro angolano e é uma irresponsabilidade criar problemas diplomáticos com um dos poucos países que está, neste momento, a investir em Portugal.

A soberania portuguesa é muito bonita. Mas Portugal precisa de financiamento externo não pode fazer mais do que aceitar as ordens da troika e os ralhetes da Comissão Europeia e dos governantes europeus a quem ela realmente obedece.

A Constituição da República é muito bonita. Mas Portugal não se pode dar ao luxo de ver mais medidas chumbadas pelo Tribunal Constitucional, porque assim será impossível cumprir as metas definidas pela troika e o segundo resgate tornar-se-á inevitável.

A democracia é muito bonita. Mas não havendo qualquer diferença entre um ou outro governo, entre votar num ou noutro partido, porque todos terão de cumprir as mesmas medidas para chegar às mesmas metas, ela é, na realidade, uma mera formalidade.

A justiça social é muito bonita. Mas, não tendo nem querendo ter moeda própria, a única forma de não nos endividarmos mais é baixarmos insuportavelmente os salários para importarmos menos e exportarmos mais. E baixarmos o imposto sobre o lucro das empresas. E continuar a ir buscar o que falta ao consumo de todos, no IVA. E salvar os bancos, do BPN ao Banif e a todos os que lhes sigamMas nunca salvar as empresas produtivas, porque isso violaria as sagradas leis europeias de concorrência. E não obrigar as instituições financeiras pagar por uma crise que elas próprias criaram, porque se o fizéssemos os capitais debandavam. Teremos de ser mesmo nós, os reformados, os trabalhadores, os pequenos empresários, os pobres e a classe média a pagar a factura. Porque socializar os lucros é socialismo, mas socializar os prejuízos é necessidade.

O Estado de direito, a independência nacional, a democracia e a justiça são luxos para tempos de bonança. Em crise, quando o dinheiro falta, a dignidade e a democracia não passam de lirismo. "Não há dinheiro!" Qual das três palavras não perceberam? A coragem e o patriotismo são arrebatamentos pueris e a falta de coluna é maturidade e sentido de Estado. Por isso, não se espantem ao ouvir um primeiro-ministro dizer que está disposto a tudo para agradar a um ditadorzeco. Um povo agachado de medo só pode merecer um capacho como líder.
A alternativa? Correr o risco de ser livre. E pagar a factura dessa liberdade. Seja dentro ou fora do euro, seja correndo com a troika ou negociando firmemente com ela. Pobres, se preciso for. Falidos, se tiver de ser. Mas dignos de, como povo, sermos donos do nosso destino. Ou vendidos de uma vez por todas. Se assim for, poupem-nos à farsa de ter governo, parlamento, presidente, eleições, constituição, bandeira e hino. É tudo muito bonito, mas...» – Daniel Oliveira, no Expresso.