No dia seguinte à apresentação de
um Orçamento com vários chumbos constitucionais dados como certos, embora não com esse propósito e sim para justificar a falta de carácter de um líder
mitómano, o CDS pôs a circular um
boato que vem novamente alertar para a ameaça constitucional que encerra um
eventual entendimento entre o PSD e o PS para satisfazer novas exigências externas
que, não duvidemos, a destruição provocada pela loucura subserviente e
austeritária dos últimos anos legitimará mais cedo do que tarde. É hoje óbvio
que o segundo resgate e todas as suas contrapartidas serão anunciados, aliás,
reanunciados, quando menos o esperemos. E é pouco provável que um Governo
fracassado e descredibilizado até nos pormenores mais irrelevantes sobreviva –
desta vez não será um chumbo ou dois – à saraivada constitucional que se
adivinha.
Estamos, pois, numa situação em
tudo semelhante à que a Grécia viveu pouco antes do seu último período
eleitoral, do qual resultou um Governo de coligação entre os dois partidos
homólogos dos nossos PS (PASOK) e PSD (Nova Democracia). Mas sem Syriza. Um
Syriza é um fenómeno impossível de acontecer com o PCP encapsulado numa ortodoxia
que ainda fala em burguesia e proletariado e diz maravilhas de regimes como o angolano,
com um Bloco de Esquerda apostado em implodir amarrado a delírios de inovação
social como a sua liderança bicéfala e com uma sociedade civil desorganizada,
avessa a rupturas e, ao contrário dos gregos, muito pouco dada a protestos. O protesto
por cá resume-se quase exclusivamente a um abstencionismo que cresce função da
punição que reclama para o rotativismo que acaba por eternizar.
Pior do que tudo, em Portugal não
existe a percepção colectiva do perigo inerente a um eventual pacto
constitucional entre PS e PSD, visto com bons olhos por grande parte da
população, o qual, para acontecer, basta que o PS vista a sua roupagem de
maioria absoluta, tão diferente da que traja quando está na oposição. E nas
últimas autárquicas, recordemo-lo bem, o voto de protesto virou-se para o PS.
Passámos dois anos a ouvir “Portugal não é a Grécia”. Consumada que está a nova
cavalgada orçamental, agora temos tudo para sermos pior ainda. O juízo também não
é recurso que abunde por aí. Isto assusta.
