
«Não há jornal ou revista que nos
últimos três anos não tenha apresentado uma ou mais reportagens sobre
“empreendedores” de sucesso vário. Normalmente a reportagem apresenta X
portugueses que triunfaram na sua área / abriram um pequeno negócio de sucesso /
tiveram uma ideia genial / regressaram da emigração (riscar o que não
interessa). São normalmente caras simpáticas e jovens, umas mais abetalhadas
outras mais sóbrias, sempre com alguma designer mais moderna pelo meio. A
omnipresença e assiduidade deste tipo de artigo é justificada pela intenção de
mostrar a viabilidade criativa e renovadora do que por “cá” se vai fazendo, ou
seja, que o remédio para a macambúzia e cinzenta falta de produtividade
nacional é o génio da juventude empenhada em explorar novas formas de
valorização capitalista, uma merdinha às cores de cada vez. Num pais onde o
grande trunfo da exportação é uma linha de papel higiénico colorido as ideias
dos jovens seguem mais ou menos a mesma ordem conceptual: “empreender”
significa essencialmente pegar num pequeno negócio banal, dar-lhe um nome giro
em inglês e comprar a mobília da loja no IKEA. O jovem “empreendedor” acha que
por a sua empresa de aluguer de bicicletas a turistas se chamar “lx bike tour
experience” ou que por propor uma marca de café com leite sob o nome “gallonize
your life” irá reinventar a roda. A difusão desta ideia é essencialmente
propagandística ao sugerir uma reorganização do trabalho em modelos cada vez
mais isolados, autónomos e desprotegidos enquanto última tábua de salvação no
naufrágio que é a crise. Uma mínima percentagem destes novos empresários irá
triunfar constituindo mini-núcleos de exploração brutal e todos os outros irão
terminar enquanto reforço da mão-de-obra barata ou, na melhor das hipóteses,
organizando-se dentro de um aparato ideológico de assistência ao
“empreendedorismo”. O “empreendedorismo” não é a renovação do tecido
empresarial do país, a excelência criativo-técnica da sociedade ou o sentido de
aventura dos jovens, mas sim a crise, a austeridade e a precariedade pintadas
de amarelo e azul com o lettering em helvetica neu. A capacidade inovadora do
capitalismo deveu-se à sua inédita capacidade de mobilização gigantesca de
recursos e de trabalho, ou seja, precisamente o contrário destes microscópicos
centros de valorização banal que procuram emular o consumo de rua dos grandes
centros cosmopolitas, esquecendo no entanto que, em Portugal, não há uma
circulação de capital e de agentes económicos que permita sustentar esse nível
de consumo quotidiano. Os heróis que o capitalismo tardio produziu não deveriam
servir de inspiração mas sim de aviso, sendo a sua emulação semelhante à de
qualquer outra estrela: qualquer tótó a mostrar o seu projecto empreendedor na
televisão se sente o próximo Steve Jobs, mas na verdade está tão próximo dele
como qualquer concorrente de fundo de concurso de talentos televisivo está da
Beyoncé.
Fosse o “empreendedorismo” apenas
a brincadeira trágica da burguesia jovem nos últimos dias do capitalismo ou
apenas mais um dos indicadores da perversidade e da miséria dos tempos em que
vivemos e ficaríamos por aqui. A questão mais vasta e preocupante, impregnada
pelos processos acima descritos, é a da redução da capacidade de pensamento e
de problematização do existente, da política enfim, ao campo da “ideia gira” e
de uma profundamente banal e medíocre ideologia da participação vácua que se
justifica a si própria. De certo modo o “activismo” espelha totalmente o
“empreendedorismo”, revendo-se várias vezes até no conceito macabro de “empreendedorismo
social”, ou seja, num elogio da acção nua desprovida de contexto e
problemática. A multiplicação de acções apenas simbólicas, de momentos em que
se pede a “todos os portugueses que escrevam em folhas de papel as suas ideias
para mudarem o país” e de reportórios de contestação apenas emotivos e
estéticos obedece totalmente a um espírito do tempo que apenas preza o que
imediatamente se dissipar numa espuma dos dias que, obviamente, de suave e
ligeira tem muito pouco.
Não é nada inocente que no momento
em que o governo em exercício leva a cabo uma utilização totalitária das
instituições do estado no sentido de reorganizar produtivamente a sociedade
surja precisamente esta ideia do trabalho e do capitalismo enquanto uma tarde
bem passada a fazer cupcakes com as amigas para vender a outras entidades
cosmopolitas em passeio pela baixa. Porque a realidade é obviamente outra, e é
intolerável.
PS: Na altura de postar procurei no google images
“empreendedor”. O resultado é profundamente sinistro, cínico e
esclarecedor. O momento empreendedor de
orgasmo divino no escritório é todo um novo programa de alegria no trabalho.» (ver
todas as imagens)