A recessão que Portugal atravessa
é bastante diferente das anteriores. A actual está a proporcionar uma reconfiguração
social de concentração de riqueza e de aniquilamento dos pequenos pelos
grandes, com ganhadores e perdedores perfeitamente identificáveis, uma reconfiguração que não
está a ser implementada apenas pelo Governo. Entre os grandes ou, se quiserem,
entre os ganhadores, O sector financeiro está a ter um papel importantíssimo.
Durante esta semana, através de
um relatório
divulgado pela Associação Portuguesa de Bancos, voltámos a confrontar-nos
com um dado que o comentário económico faz questão em não associar a qualquer fenómeno
de reconfiguração social que está a transferir e a concentrar a riqueza diante
dos nossos narizes: as taxas de juro cobradas pela banca às empresas
portuguesas no final do semestre (5.53%) eram mais do dobro do que pagavam, em
média, as restantes empresas da Zona Euro (2.59%). O relatório refere ainda que
"o diferencial entre as taxas de juro de novos empréstimos a sociedades
não financeiras em Portugal e na área do euro aumentou depois do início da
crise da dívida soberana".
Outro estudo divulgado por estes
dias, Catastrophic
job destruction ("destruição de empregos catastrófica" em
inglês não soará tão mal), este do Banco
de Portugal, identifica como uma das principais razões que explica a enorme
destruição de empregos e a elevada taxa de desemprego a “severidade da
restrição de crédito” por parte dos bancos. Os dados mostram que “as empresas
que enfrentavam elevados custos financeiros saíram [do mercado] ou destruíram
postos de trabalho a taxas mais elevadas do que aquelas que operavam com
melhores condições financeiras”, principalmente em 2010 e 2011. “Verificou-se
uma destruição de empregos sem precedentes”, dizem os autores, destacando que
os encerramentos de empresas provocaram cerca de metade da perda de postos de
trabalho em 2009.
Finalmente, ainda sobre
reconfiguração social, foi também notícia durante a semana que hoje termina o
anúncio da venda de uma empresa com interesse estratégico nacional e que dá
lucro ao Estado, os CTT e a licença para a criação de um banco postal, com o
Ministro da Economia a confessar que o negócio se fará mesmo sem
a garantia da manutenção de todos os postos de trabalho. O Governo vai
vender uma fonte de receita e com isso ainda vai fazer aumentar a despesa com subsídios de desemprego. Para variar, óptimo
negócio para o comprador e péssimo negócio para o vendedor: todos nós.
Resumindo: o Governo injectou
largos milhares de milhões de euros no sector financeiro. Este limita a
quantidade e aumenta o preço do pouco crédito que faz chegar a pequenas e
médias empresas, guardando a liquidez para especular no mercado da dívida e
para financiar privatizações. Pequenas e médias empresas fecham portas, deixam
o mercado livre para as grandes empresas e lançam centenas de milhares de
portugueses para o desemprego, incluindo ex-empresários, agora proletarizados.
O Governo reduz subsídios de desemprego nos valores a receber e na duração
dessa protecção, fazendo aumentar o desespero que obriga as pessoas a aceitarem
trabalhar recebendo salários mais baixos (Portugal foi o país onde o salário
médio mais se reduziu nos últimos dois anos). As privatizações a preço de saldo
põem empresas lucrativas que se fizeram com o dinheiro dos contribuintes a
enriquecer privados em vez de contribuírem para equilibrar as contas públicas. Os
impostos aumentam para compensar esta perda de receita. Falta privatizar a Saúde
e a Educação. "Reajustamentos". "Reformas estruturais necessárias".
Um país nas mãos de uns poucos e a miséria
instalada para os enriquecer ainda mais.
É um plano diabólico. Os ganhadores estão unidos e muito bem organizados. Os até agora perdedores têm que se organizar. E unir-se também. Senão, continuará a ser sempre a perder.
(editado)
É um plano diabólico. Os ganhadores estão unidos e muito bem organizados. Os até agora perdedores têm que se organizar. E unir-se também. Senão, continuará a ser sempre a perder.
(editado)

