sexta-feira, 11 de outubro de 2013

A decadência Nobel


Já lá vai o tempo em que o Nobel da paz tinha por função abrir horizontes de esperança aos desesperados dando visibilidade e reconhecimento às suas causas. Depois de, no ano passado, o prémio ter sido atribuído à União Europeia, o laureado deste ano é uma organização, a Organização para a Proibição das Armas Químicas,  que integra todos os países que ratificaram a Convenção de 1993. De fora ficaram nomes e causas incómodas como os de Malala Yousafzai e a sua luta pela alfabetização das mulheres no mundo árabe, o de Bradley Manning e a sua condenação a 35 anos de prisão pelo contributo decisivo que deu para  a retirada das tropas norte-americanas do Iraque ou o do ginecologista Denis Mukwege e a causa das mulheres violadas em África e culpadas pela sua própria violação. Com tanta falta de coragem do Comité Nobel, podemos dar-nos por satisfeitos por não se terem decidido por Vladimir Putin. O nome do mafioso ditador russo figurava entre os candidatos deste ano.

Paulo Morais, o justiceiro das galgas ao paladar


Paulo Morais, o imaculado transparente que diz umas coisas sobre corrupção, anteontem lembrou-se de dizer que "todo o espectro político, da esquerda à direita, é subserviente a Eduardo dos Santos e aos seus correligionários". E é mentira. Paulo Morais, um homem informado que lê jornais e acompanha os trabalhos parlamentares, está fartinho de saber que o Bloco de Esquerda há muito que se destaca da subserviência que envergonha os restantes partidos com representação parlamentar com um trabalho persistente e já com longos anos de denúncia quer dos crimes do regime angolano, quer das suspeitíssimas ligações que algumas das suas mais destacadas figuras têm mantido com os governos nacionais que, entre outras facilidades concedidas, sucessivamente lhes têm vendido património público a preços de amigo. Pior do que mentir, Paulo Morais mentiu consciente e deliberadamente.

Com que objectivo? O tema é política, o objectivo será também político. A desinformação favorece a desconfiança, a desconfiança gera abstencionismo e o abstencionismo é o seguro de vida do rotativismo que tem interpretado a corrupção contra a qual Paulo Morais alegadamente trabalha. Inconsequência, então? Também não. Paulo Morais conhece bem a sua plateia e sabe que a velocidade de circulação de artigos que o mencionem aumenta exponencialmente se lhe juntar o discurso anti-partidos que tanto agrada a quem o lê e ouve. Paulo Morais poderia juntar os seus esforços ao do partido que diz ser - e objectivamente não é - igual aos outros na subserviência ao regime angolano, esse partido também tem feito o que as suas votações lhe têm permitido no combate à corrupção, mas não seria a mesma coisa. Paulo Morais prefere não correr o risco de ser rotulado de "perigoso radical de esquerda", péssimo para um ex-militante laranja, e trabalhar para aquela imagem do justiceiro que chegará para nos salvar montado num cavalo branco numa manhã de nevoeiro. Enquanto essa manhã não se ponha a jeito para acontecer, quanto mais corrupção, tanto melhor para  Paulo Morais. Afinal, o seu protagonismo depende dela. É um excelente contador de histórias. Algumas até são verdadeiras.


[actualizado a 9/4/2015]