quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Quase seis anos depois


O Governo criou novos certificados de aforro com subscrição mínima de 1000 euros com taxas garantidas antes de impostos (28%) de 2,75% no primeiro ano, 3,75% no segundo, 4,75% no terceiro e 5% no quarto e no quinto ano, oferecendo ainda um prémio de 80% sobre a taxa de crescimento do PIB que possa eventualmente verificar-se nestes dois últimos anos. Em qualquer dos casos, as remunerações oferecidas estão bem acima dos menos de 2% actualmente oferecidos pela banca para depósitos de prazo inferior a um ano, diferença que ilustra bem a fortuna que bancos ganharam e, simultaneamente, u tanto que contribuintes e aforradores perderam. Em Janeiro de 2008, critiquei o favor que o Governo de José Sócrates fez ao sector financeiro  quando reduziu drasticamente os juros dos certificados de aforro. Passados quase seis anos, manda-me a coerência que saúde a medida hoje anunciada, embora assinalando a demora que rendeu e custou tantos milhões e apesar de reparar que o produto anunciado não é exactamente o mesmo: os certificados de aforro tinham um mínimo de subscrição bastante inferior. Falta estender as mesmas condições aos pequenos aforradores. Agora é esperar para ver como reagem os aforradores a um produto oferecido por um Estado que não se comporta como pessoa de bem para depois contabilizar as poupanças, que desta vez não são cortes nem roubos e, como tal, não levam aspas. É preciso cuidado com “as poupanças”. O termo poupança tem conhecido novos significados desde que se instalou nas bocas dos amigos do alheio.

Pouco depois: O Governo aprovou nesta quinta-feira a alienação de 70% dos CTT, incluindo a autorização para criar um banco postal que terá o exclusivo da venda de certificados de aforro, ficando os restantes 30% nas mãos do Estado. Nada acontece por acaso, como se constata mais uma vez.
E logo a seguir: Apesar de só ter aprovado nesta quinta-feira a venda até 70% do capital dos CTT, o Governo pretende desfazer-se da totalidade da empresa (que o Estado hoje detém a 100%) a “médio prazo”, disse fonte próxima do processo

Malala

Malala Yousafzaï, a adolescente paquistanesa activista desde os 11 e hoje com 16 anos e baleada na cabeça pelos taliban aos 14 pela sua campanha em defesa do direito à educação das raparigas, venceu a edição de 2013 do Prémio Sakharov, do Parlamento Europeu. Quem diria. Malala, enorme, premiada por um Parlamento Europeu que, salvo honrosas excepções, olha com naturalidade para o tráfico de armas que enriquece alguns países europeus e fornece os instrumentos de morte aos carrascos desta e de muitas outras vítimas anónimas. É um prémio justo, justíssimo, mas é também um prémio atribuído por mãos bastante sujas. Por mãos que  não se limpam com prémios.

Roubar, mas com "justiça"


O Diário Económico avança esta manhã que o Governo irá cortar 15% nas subvenções de ex-políticos, um corte de 1,35 milhões de euros. Já o Correio da Manhã avança que, depois de pôr os trabalhadores em funções públicas a trabalhar gratuitamente mais uma hora diariamente,  o Governo irá agora cortar 10% os salários aos funcionários públicos que recebam acima de 600 euros, uma medida que representará um corte na despesa de 445 milhões de euros. A primeira medida é servida como justificação moral da segunda, apesar da discrepância dos valores em causa e de as subvenções dos políticos corresponderem a uma retribuição injustificável e sem qualquer contrapartida e de os salários dos trabalhadores em funções públicas corresponderem a um direito que é a retribuição paga pelo seu trabalho.
A confirmarem-se as duas notícias, teremos, portanto, por um lado, os moralistas do costume a rebentar de contentes com a distribuição de sacrifícios sugerida pela primeira medida e, por outro, os funcionários públicos a trabalhar mais uma hora todos os dias e a receber o equivalente ao que receberiam anteriormente se trabalhassem menos uma hora e um quarto. "Há tanta gente que nem sequer salário tem que chegue para comer", dirão, compungidos,  todos os moralistas que aplaudem mais um roubo que não dá um cêntimo a quem não ganha para comer e faz aumentaro número de portugueses nessa situação. Os roubos à moralista são assim, cheios de "justiça".