sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Desculpem qualquer coisinha

"Tanto quanto sei, não há nada substancialmente digno de relevo e que permita entender que alguma coisa estaria mal, para além do preenchimento dos formulários e de coisas burocráticas e, naturalmente, informar às autoridades de Angola, pedindo diplomaticamente desculpa por uma coisa que, realmente, não está na nossa mão evitar". Foi nestes termos que, em declarações à Rádio Nacional de Angola, reproduzidas pelo DN e pela RTP, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Machete pediu desculpa às autoridades angolanas pelas investigações judiciais que têm sido levadas a cabo em Portugal a figuras do seu regime, tais como o procurador-geral de Angola, João Maria de Sousa, o presidente do banco Atlântico, Carlos Silva, e as filhas do presidente José Eduardo dos Santos. Seria até natural que um ex-administrador de um banco de ladrões se dirigisse nestes termos a um regime de ladrões. Solidariedade entre colegas fica sempre bem. O problema começa quando um povo aceita em silêncio que uma figura tão sinistra governe o seu país, determine o seu destino, gira o seu património, fale em seu nome. A partir daí, tudo é possível: “caros colegas, desculpem lá, nós ainda não atingimos o vosso grau de especialização em controlar a Justiça, vamos tentar abafar isto, prometemos dar o nosso melhor”. E todos nós sabemos como eles são bons a fazê-lo. O próprio Rui Machete é disso um bom exemplo.  O mesmo que acaba de pôr todo um povo de joelhos a pedir desculpa pelos incómodos causados pela nossa Justiça aos ladrões de estimação da cleptocracia angolana. Pode? Claro que sim. Tudo é permitido quando há a garantia prévia de que qualquer vexame, por maior que seja,  não custa sequer um grito e, menos ainda, um voto. O poder não foge, eles sabem. Somos o melhor povo do mundo. Ajoelhar, limpar os joelhos e voltar a ajoelhar. Assim é o quotidiano numa qualquer república de ajoelhados.

  • Vagamente relacionado: O ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, enviou nesta sexta-feira uma declaração às redacções a esclarecer o teor de uma entrevista que deu à Rádio Nacional de Angola, a 18 de Setembro, apresentando agora uma versão que contraria o que afirmou no mês passado.
  •  Ainda mais vagamente: o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, reafirmou a confiança no ministro dos Negócios Estrangeiros, reduzindo a “uma expressão infeliz” as declarações que Rui Machete fez em Angola sobre investigações em curso na Procuradoria-Geral da República. Questionado sobre o caso Rui Machete, o Presidente da República sublinhou que os ministros respondem exclusivamente perante o primeiro-ministro e, entre elogios à PGR, recordou o princípio básico de separação entre os poderes judicial e político para dizer que também nãoserá ele a pôr ordem na barraca.

  • Um pouco mais ainda: O ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, trabalhou entre 2002 e Julho passado como consultorno escritório de advogados que defende os cidadãos angolanos que estão a ser investigados pela Procuradoria-Geral da República.
     

  • E nada a ver com: É o terceiro caso em que os currículos divulgados pelo Governo de membros do actual Executivo ou dos seus gabinetes omitem as ligações ao BPN/SLN. João Montenegro, assessor do primeiro-ministro, foi requisitado ao BPN — onde trabalhou 12 anos —, mas a passagem pelo grupo então liderado por José Oliveira e Costa, na qualidade administrativo/comercial, não consta da sua nota biográfica oficial.

Gostei de ler: "Um enorme vazio à esquerda"


«Em muito do que já se escreveu sobre os resultados destas eleições autárquicas sobressai uma intuição crucial: os eleitores estão muito insatisfeitos com as propostas políticas que lhes apresentam. Para lá da natureza local da votação em cada autarquia, há informação agregada que é preciso interpretar se queremos entender a dinâmica política dos nossos dias. De facto, no seu conjunto, os chamados "partidos do arco da governação" perderam cerca de meio milhão de votos enquanto a abstenção e o voto em branco tiveram um forte crescimento.

Mais ainda, o Bloco de Esquerda não só não se implanta localmente como nem sequer recolhe o voto de protesto. Este prefere o PCP, que tem um discurso mais consistente. Por outro lado, as candidaturas extrapartidárias irromperam na cena política com grande vigor. Falou-se muito do Porto e do Funchal, mas a excelente votação do Movimento de Cidadãos por Coimbra não tem menor significado.

Ou seja, estas eleições confirmam de forma expressiva algo que já se pressentia em anteriores eleições, que os cidadãos não estão satisfeitos com os principais partidos. Acresce que a nossa crise, a crise da zona euro, vai transformar-se numa ameaça à Constituição da República. Os partidos serão profundamente interpelados sobre o seu posicionamento relativamente à defesa da Constituição e portanto sobre a nossa integração europeia.

Nos próximos meses, em resultado da cegueira ideológica e do medo dos custos políticos, económicos e financeiros que uma mudança de rumo teria para a Alemanha, a estratégia de austeridade e desvalorização interna continuará a ser-nos imposta, restando apenas saber se com maior ou menor intensidade em função da composição do novo governo alemão. Em nome da viabilização do financiamento do país, o PS ficará sujeito a uma enorme pressão para entrar no barco político que se vai afundar. O seu discurso europeísta, clamando por uma UE de transferências que não é viável política e economicamente, ficará entalado entre o descontentamento popular interno e a nova "governação europeia" do visto prévio aos orçamentos nacionais. Por outro lado, se o BE mantiver a actual inconsistência política - combater a austeridade e renegociar a dívida mas ficar no euro -, tornar-se-á residual porque um discurso de crítica "deste euro" em nome de um "euro bom" será insuportável. Já o PCP, se vier a ser mais explícito e afirmativo relativamente à saída do euro, terá condições para crescer, embora em escala limitada, por razões evidentes. Ou seja, a crise está a produzir um enorme vazio à esquerda.

os próximos meses, em resultado da cegueira ideológica e do medo dos custos políticos, económicos e financeiros que uma mudança de rumo teria para a Alemanha, a estratégia de austeridade e desvalorização interna continuará a ser-nos imposta, restando apenas saber se com maior ou menor intensidade em função da composição do novo governo alemão. Em nome da viabilização do financiamento do país, o PS ficará sujeito a uma enorme pressão para entrar no barco político que se vai afundar. O seu discurso europeísta, clamando por uma UE de transferências que não é viável política e economicamente, ficará entalado entre o descontentamento popular interno e a nova "governação europeia" do visto prévio aos orçamentos nacionais. Por outro lado, se o BE mantiver a actual inconsistência política - combater a austeridade e renegociar a dívida mas ficar no euro -, tornar-se-á residual porque um discurso de crítica "deste euro" em nome de um "euro bom" será insuportável. Já o PCP, se vier a ser mais explícito e afirmativo relativamente à saída do euro, terá condições para crescer, embora em escala limitada, por razões evidentes. Ou seja, a crise está a produzir um enorme vazio à esquerda.

Por razões diversas, que se prendem com a inércia das organizações, quer no plano do poder, quer no das ideias, não é provável que ocorram mudanças significativas até ao final do ano. Apesar de sabermos que a situação é insustentável, quer o governo alemão, quer o nosso governo, quer o PS e o BE, todos vão tentar manter o rumo. Acontece que a situação tende a tornar-se muito instável, em Portugal e noutros países, como já é evidente na Grécia e na Itália.

Num tempo de grande turbulência financeira, social e política como o que se avizinha, o que de mais saudável poderia acontecer à democracia portuguesa seria o aparecimento de um novo partido. Um partido de esquerda, socialista, que assuma a ruptura com o neoliberalismo como condição necessária para que o país se possa desenvolver. Que diga ao país que uma saída do euro, a decidir em momento próprio, comporta sacrifícios, porém temporários e sem comparação com os da situação asfixiante em que nos encontramos. Um partido capaz de formular uma estratégia de transformação democrática do nosso capitalismo periférico, imbuído de um europeísmo realista - sem ilusões federais -, introduziria no espaço público português a lufada de ar fresco por que muita gente desespera.» - Jorge Bateira, no Ladrões de Bicicletas.