"Tanto quanto sei, não há nada
substancialmente digno de relevo e que permita entender que alguma coisa
estaria mal, para além do preenchimento dos formulários e de coisas
burocráticas e, naturalmente, informar às autoridades de Angola, pedindo diplomaticamente
desculpa por uma coisa que, realmente, não está na nossa mão evitar". Foi
nestes termos que, em declarações à Rádio Nacional de Angola, reproduzidas
pelo DN e pela RTP, o Ministro dos Negócios Estrangeiros Rui Machete pediu
desculpa às autoridades angolanas pelas investigações judiciais que têm sido
levadas a cabo em Portugal a figuras do seu regime, tais como o procurador-geral
de Angola, João Maria de Sousa, o presidente do banco Atlântico, Carlos Silva,
e as filhas do presidente José Eduardo dos Santos. Seria até natural que um
ex-administrador de um banco de ladrões se dirigisse nestes termos a um regime
de ladrões. Solidariedade entre colegas fica sempre bem. O problema começa quando
um povo aceita em silêncio que uma figura tão sinistra governe o seu país, determine o seu destino, gira o seu património, fale em seu nome. A
partir daí, tudo é possível: “caros colegas, desculpem lá, nós ainda não
atingimos o vosso grau de especialização em controlar a Justiça, vamos tentar
abafar isto, prometemos dar o nosso melhor”. E todos nós sabemos como eles são
bons a fazê-lo. O próprio Rui Machete é disso um bom exemplo. O mesmo que acaba de pôr todo um povo de joelhos a pedir desculpa pelos incómodos
causados pela nossa Justiça aos ladrões de estimação da cleptocracia angolana. Pode?
Claro que sim. Tudo é permitido quando há a garantia prévia de que qualquer vexame, por maior que seja, não custa sequer um grito e, menos ainda, um voto. O poder não foge, eles sabem. Somos o melhor povo do mundo. Ajoelhar, limpar os joelhos e voltar a ajoelhar. Assim é o quotidiano numa qualquer república
de ajoelhados.
- Vagamente relacionado: O ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, enviou nesta sexta-feira uma declaração às redacções a esclarecer o teor de uma entrevista que deu à Rádio Nacional de Angola, a 18 de Setembro, apresentando agora uma versão que contraria o que afirmou no mês passado.
- Ainda mais vagamente: o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, reafirmou a confiança no ministro dos Negócios Estrangeiros, reduzindo a “uma expressão infeliz” as declarações que Rui Machete fez em Angola sobre investigações em curso na Procuradoria-Geral da República. Questionado sobre o caso Rui Machete, o Presidente da República sublinhou que os ministros respondem exclusivamente perante o primeiro-ministro e, entre elogios à PGR, recordou o princípio básico de separação entre os poderes judicial e político para dizer que também nãoserá ele a pôr ordem na barraca.
Um pouco mais ainda: O ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, trabalhou entre 2002 e Julho passado como consultorno escritório de advogados que defende os cidadãos angolanos que estão a ser investigados pela Procuradoria-Geral da República.- E nada a ver com: É o terceiro caso em que os currículos divulgados pelo Governo de membros do actual Executivo ou dos seus gabinetes omitem as ligações ao BPN/SLN. João Montenegro, assessor do primeiro-ministro, foi requisitado ao BPN — onde trabalhou 12 anos —, mas a passagem pelo grupo então liderado por José Oliveira e Costa, na qualidade administrativo/comercial, não consta da sua nota biográfica oficial.

