Considerada oficialmente impensável
há seis meses e apontada desde o início pela esquerda responsável como consequência
mais do que certa das políticas de austeridade que o centrão de interesses formado
por PSD, PS e CDS acordou com a troika, a "eventualidade" de Portugal
precisar de um segundo resgate para assegurar o seu financiamento é agora vista
em Bruxelas como o cenário mais provável, noticia o Público,
sem contudo dedicar uma linha sequer a recordar que Bloco de Esquerda e PCP desde
sempre o vaticinaram e combateram, sendo por isso rotulados de "radicais"
e "irresponsáveis" desprovidos de qualquer "sentido de Estado"
e de "responsabilidade", qualidades que a comunicação social trabalha
para fazer monopólio dos partidos que assinaram o memorando. Sábado, véspera de
eleições autárquicas e dia de reflexão, a Comissão Nacional de eleições proíbe qualquer
mensagem passível de alterar o sentido de voto dos portugueses, mas consente omissões
como esta, feitas à medida de eleições talhadas para nada mudarem. É dia de reflexão,
toca a reflectir como manda a sapatilha. Com medo, com muito medo. A capa da edição impressa do Público é negra.
Vagamente relacionado: «Amanhã
vota-se nas eleições autárquicas. Apesar do enjoo que suscitam no pedantismo
nacional e no engraçadismo que substituiu o debate público, foram e são
particularmente interessantes. São-no pelo seu significado nacional e local,
são-no pela imensa participação cívica, pelo que revelam de tendências mais
profundas da vida político-partidária, com a emergência de
"independentes" fortes, mas são-no acima de tudo porque mostram um
fugaz retorno da política e da democracia ao país da "emergência
financeira". Durante um mês, não fomos "intervencionados", seja
por escapismo irrealista, seja por liberdade, a política soltou-se. Não é por
acaso que os partidários do "estado de excepção financeira" as tratam
tão mal, como à democracia.
Estas eleições foram eleições
livres da troika, para a asneira e para a coisa boa, capazes de ainda manter
algum espaço saudável em que o garrote vil das "inevitabilidades" não
entra. Foram eleições em que o PSD e o CDS prometeram pontes e calçadas, túneis
e aquedutos, livros gratuitos e medicamentos para todos, óscares de Hollywood e
prémios internacionais de arquitectura, ou seja, foram eleições que ocorreram
nos bons e velhos idos do esbanjamento no seu máximo esplendor. Sócrates devia
sentir-se em casa, no meio dos cartazes autárquicos, Passos Coelho devia pintar
a cara de preto por não conseguir convencer os seus dos méritos de empobrecer.
Mas, bem pelo contrário, andou nas arruadas soterrado por círculos e círculos
de guarda-costas e polícias. Estranho, não é?
Depois de amanhã, voltamos ao
Portugal da troika, em pleno pós-"crise Portas", com o fantasma da
instabilidade que o "irrevogável" fez sair da lâmpada e que não volta
outra vez para lá, a habitar os escritórios assépticos da Moody"s e da
Fitch. O Governo está paralisado, diria eu mais uma vez, se não fosse esse o
estado mais habitual. Se os portugueses soubessem como são os Conselhos de
Ministros, como todo o trabalho orçamental está bloqueado pelas resistências de
ministros e pela espera das decisões da troika, percebiam muito do que é o
estado do país. A coisa está tão negra e tão confusa, tão desesperançada, que
nem o ministro da propaganda Maduro está com força anímica para inventar
mentiras eficazes.
O último produto do laboratório
orwelliano governamental para responder às decisões do Tribunal Constitucional
é contraditório e pífio. Por um lado, diz Portas, o essencial da "reforma
laboral" passou no Tribunal Constitucional (os feriados e os dias de
férias...), e o menos importante (os despedimentos sem regras, estão mesmo a
ver a irrelevância...) chumbou. E logo a seguir, dito pelo mesmo, o mantra
ameaçador da perplexidade dos mercados face às decisões do Tribunal. Não
percebo por que razão tendo tido o Governo vencimento de causa constitucional
no que era mais importante, cai o Carmo e Trindade da Comissão, do BCE e do
FMI, pela parte que era menos importante... Já nem sequer se preocupam em
elaborar mentiras com algum nexo.
Mas o essencial do enorme impasse
em que está a governação reside na conjugação da tempestade perfeita: a
"crise Portas" deitou fora a "credibilidade" de Gaspar, e é
natural que assim seja porque Portas saiu "irrevogavelmente" por
considerar que a política de austeridade estava esgotada e queria mostrar
resultados na "economia" e pôr a troika na rua. Está-se mesmo a ver
como é que esses "sinais" são lidos pelos "mercados", até
pela sua inconsequência. Portas é o directo responsável pela crise dos juros
portugueses e anda por aí em campanha eleitoral a falar de "recuperação
económica". Se houver segundo resgate, como muito provavelmente haverá, de
forma aberta ou encapotada, agradeçam-lhe num lugar de honra. Não é o único,
bem pelo contrário, mas foi de todos aquele que mais mal fez ao país, pela
futilidade da sua vaidade e do seu gigantesco ego.
O menosprezo do Presidente pelos
factores políticos da crise, que levou a manter em funções o
"navio-fantasma" do governo da diarquia Passos-Portas, apoiado pela
opinião publicada que assume o discurso da "inevitabilidade", pela imprensa
económica e pelo establishment financeiro, assente na fraqueza de Seguro,
impediu que a solução, arriscada, imperfeita, e com custos, das eleições
antecipadas pudesse alterar os dados da questão e permitir mais espaço de
manobra política. Conheço muita gente que nem queria ouvir falar de eleições e
hoje começa a perceber que elas permitiriam alterar os dados políticos, que o
actual impasse não permite.
Por tudo isto, depois de amanhã
vamos acordar na antecâmara do Inferno. Pensam que estou a exagerar? Na
verdade, nestes dois anos, a realidade tem sido sempre pior do que a minha mais
perversa imaginação, porque as coisas são como são, tão simples como isto. E
são más. A partir de amanhã, haja convulsão mansa no PSD, ou forte no PS,
acabarão por milagre as pontes, túneis e medicamentos gratuitos, que ninguém
fará, nem pode fazer, e vai começar o discurso puro e duro da violência social
contra quem tem salários minimamente decentes, quem tem emprego no Estado, quem
recebe prestações sociais, quem precisa de serviços de saúde, quem quer educar
os seus filhos na universidade, quem quer viver uma vida minimamente decente,
quem quer suportar uma pequena empresa, quem paga, com todas as dificuldades, a
sua renda, o seu empréstimo.
O que nos vai ser dito, com toda a
brutalidade, é que os nossos credores entendem que ainda não estamos
suficientemente pobres para o seu critério do que deve ser Portugal. Apenas
isto: vocês ganham muito mais do que deviam, não podem ser despedidos à
vontade, têm mais saúde e educação do que deveriam ter, trabalham muito menos
do que deviam, vivem num paraíso à custa do dinheiro que vos emprestamos e, por
isso, se não mudam a bem mudam a mal. Isto será dito pelos mandantes. E isto
vai ser repetido pelos mandados da troika, sob a forma de não há
"alternativa" senão fazer o que eles querem. Haver há, mas nunca
ninguém as quer discutir, quer quanto à saída do euro, quer quanto à
distribuição desigual dos sacrifícios, de modo a deixar em paz os mecânicos de
automóveis e as cabeleireiras e olhar para os que se "esquecem" de
declarar milhões de euros, mas isso não se discute.
Por que é que, dois anos depois de
duros sacrifícios, estamos pior do que à data do memorando, por que é que
nenhum objectivo do memorando foi atingido, por que é que o Governo falhou
todos os valores do défice e da dívida, porque é que o desespero é hoje maior,
a impotência mais raivosa, o espaço de manobra menor, isso ninguém nos
explicará do lado do poder. Vai haver um enorme atirar de culpas, à troika, do
PSD ao CDS ao PS, à ingovernabilidade atávica dos portugueses, aos sindicatos
comunistas, aos juízes conservadores do Tribunal Constitucional, e o ar ficará
denso de palavras de raiva e impotência. Mas "vamos no bom caminho",
dirá o demónio de serviço à barca do Inferno. Depois de amanhã ouviremos essas
palavras.» - Pacheco Pereira, no mesmo Público.
