«É o país sob intervenção da
troika que vai a votos este domingo. As eleições autárquicas não ocorrem num
país a fingir, em que os municípios são imunes ao choque social e económico
dramático que os credores nos impõem com cada vez mais severidade (apesar dos
"sinais" e da "volta" vislumbrados em sonhos idílicos pelos
membros do Governo). E é claro que no domingo à noite será à luz da realidade
política desse país verdadeiro que serão lidos os resultados eleitorais. Nos
muitos concelhos em que estive nestas últimas semanas ouvi, martelado vezes sem
conta, o discurso de "um país, duas realidades": o país da troika no
Terreiro do Paço e o país das estradas esburacadas, dos hospitais a fechar e
dos centros urbanos desertos e em degradação nas cidades e nas vilas.
Ora, não há dois países: o país
da troika é o país das cidades e das vilas. É nas cidades e nas vilas que o
desemprego tem rostos concretos, é nas cidades e nas vilas que a falta de
horizontes dos jovens e o desespero dos velhos tem nomes concretos, é nas cidades
e nas vilas que a emigração tem vidas concretas. É nas cidades e nas vilas que
as políticas da troika zelosamente aplicadas pelo Governo entram no quotidiano
das pessoas. As estradas esburacadas, os hospitais a fechar e os centros
urbanos desertos e em degradação são o país da troika. O país da troika é aqui,
em cada terra que vai a votos no domingo.
Esta realidade é convenientemente
ignorada pelos aristocratas do populismo justicialista. Dedicam-se a exercícios
de aritmética sem alma para justificarem o seu apoio agora a candidatos que,
num passado nada longínquo, criticaram por incom- petência extrema ou mesmo por
promiscuidade com negócios obscuros. Os aristocratas do populismo profundo são
assim: escolhem sempre o que há de mais velho no sistema porque têm horror ao
que o transforma a sério.
No país da troika que vai a votos
no domingo são precisamente escolhas fortes que têm de ser feitas. Aponto três.
Primeira: a escolha entre mais democracia ou menos no país das cidades e das
vilas. Num momento em que a troika esvazia a democracia portuguesa de conteúdo
material, estas eleições vieram recolocar, pela voz de partidos e de
movimentos, a exigência contrária de mais democracia participativa,
responsabilizando mais os eleitos pelas suas decisões mas responsabilizando
também mais os cidadãos pelo exercício do poder que muda as vidas. Segunda: a
escolha entre a cedência, satisfeita ou disfarçada, aos interesses mais
poderosos e a coragem de defender sem transigências o interesse público. O país
das cidades e das vilas é uma montra de violações grosseiras de planos
municipais e de servilismo para com o betão especulativo. Estas eleições, pela
mão de partidos e de movimentos, trouxeram para o centro do debate a pergunta
decisiva da democracia: mandam os cidadãos ou mandam os poderes fácticos não
controlados? Terceira: a escolha entre tratamento do aspeto superficial e
serviço difícil aos mais pobres. Contra as velhas estratégias de multiplicar
obras sem sentido e criar nichos fictícios de afirmação local, partidos e
movimentos trouxeram a urgência da resposta social à agressão ao povo para o
centro da escolha de domingo.
Por muito que custe aos
aristocratas do populismo conservador, estas são as escolhas irrecusáveis que
se farão no domingo no país das cidades e das vilas que é o país da troika.» – José
Manuel Pureza, no
DN.