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| O cartaz publicitário de uma agência de viagens sediada em Karlsruhe, cidade independente do Estado Alemão de Baden-Württemberg, não podia ser mais claro ao promover férias nos «PIIGS» com uma frase seca e lapidar: «Vá visitar os seus impostos!» («Besuchen Sie doch ihre Steuern!» - rodeada das referências a Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). |
«Angela Merkel ruma ao seu
terceiro mandato depois de haver reduzido a falência da União Europeia a um
conflito entre ‘povos indolentes’ – ‘gente como os grego-ibéricos, que se
aposenta cedo, dorme tarde e gosta de tirar férias’ – e os laboriosos e austeros
germânicos.
Há que se reconhecer competência
na elaboração discursiva da líder da UCD , a conservadora União
Democrata-Cristã alemã. Frau Merkel jogou para a esfera da moralidade aquilo
que remete aos defeitos da matriz neoliberal que fundou e afundou a União
Europeia. Quais sejam: a viciosa combinação de mercados desregulados e
pró-cíclicos, o desarmamento fiscal e o liberou geral entre credores e
tomadores no ciclo de alta liquidez internacional.
Instada a se defrontar com o
espelho trincado de sua própria extração histórica, Merkel optou por demonizar
e escalpelar a devassidão do caráter, intrínseca a latitudes e longitudes
ensolaradas. A austeridade decorrente dessa elaboração, que junta preconceito e
interesses de mercado, estala o relho do desemprego nas costas de mais de 27
milhões de pessoas no continente europeu neste momento. Um círculo vicioso de
arrocho social, demência fiscal e privilégio às finanças promove o réquiem da
iniciativa política num continente onde a política estendeu o mais longe
possível as prerrogativas do Estado do Bem Estar Social. A fome está de volta à
sociedade que imaginava tê-la erradicado com a exuberância da produção agrícola
do pós- guerra, associada à rede de proteção social.
Segundo a Oxfam, ONG presente em
100 países, em 2011 havia 120 milhões de pobres na União Europeia. O
contingente dos deserdados pode crescer entre 15 e 25 milhões até 2025, adverte
a organização, se a austeridade não for derrotada. As taxas de desemprego
triplicaram na Espanha e na Grécia nos últimos seis anos. Elas atingem 42%
entre os jovens em Portugal; 56% na Espanha e 59% na Grécia. A predominar a
purga cobrada por Frau Merkel, o mercado de trabalho dificilmente irá mudar.
A busca do equilíbrio fiscal
galopa uma aritmética classista, que tem na Inglaterra, do engomadinho Cameron,
a sua referência de rigidez. A fórmula obedece à seguinte proporção: de cada
100 unidades de redução do déficit, 85 devem resultar de cortes em gastos
sociais e investimentos. Apenas 15 apoiam-se na elevação de impostos sobre os
mais ricos. Para que a conta de chegar se efetive, o conservadorismo britânico
prevê cortar 1 milhão e 100 mil empregos do setor público até 2018.
A exceção alemã numa terra
devastada, ademais de suspeita, assenta igualmente em mecânica perversa. Frau
Merkel gaba-se de ter acrescentado 1,4 milhões de vagas ao mercado de trabalho
germânico no século 21. O feito encobre uma aritmética ardilosa. Desde 2000, a
classe trabalhadora alemã perdeu 1,6 milhões de vagas de tempo integral, com
direitos plenos. Substituídas por 3 milhões de contratações em regime precário,
de tempo parcial. O salário mínimo (hora/trabalho) do semi-emprego alemão só
não é pior que o dos EUA, de Obama.
É no alicerce das ruínas
trabalhistas que repousa o sucesso das exportações germânicas, cantadas em
redondilhas pelo jogral conservador aqui e alhures. Exportando arrocho, o
colosso alemão consegue vender mais do que consome internamente. A fórmula
espalha desemprego e ‘bons costumes’ ao resto do mundo. Como se vê, também dá
votos e prestígio a Merkel.
O ‘modelo alemão’, todavia, traz
no DNA o traço de um esgotamento histórico que o torna inimitável: se todos
acionarem o moedor de carne de Frau Merkel, quem vai comprar o excesso de
salsicha?
A ortodoxia brasileira se recusa
a fazer as contas. E insiste em trazer ao país a caixa de ferramentas made in
germany. A América Latina já provou dessa poção. Com resultados desastrosos. Sob
o efeito sequencial da crise da dívida externa, anos 80, e do ajuste neoliberal
na década seguinte, capitaneado aqui pelo PSDB, a renda per capita
latino-americana regrediu, em média, 15 anos. Em 2000, a taxa desigualdade
regional atingiu seu recorde histórico: a porcentagem de pobres saltou de
40,5%, em 1980, para cerca de 48%. Até 2005, as taxas de pobreza permaneciam em
níveis superiores às de 1980. Ou seja, a América Latina levou 25 anos para
recuperar o patamar de pobreza anterior à crise da dívida externa, lembra a
mesma Oxfam. Soa desconcertante, assim, após uma década de avanços econômicos e
sociais, que o conservadorismo nativo – a exemplo de Frau Merkel—tente reduzir
os desafios atuais do desenvolvimento brasileiro a uma questão moral. Nossos
‘gregos’, segundo eles, seriam os ’mensaleiros’. Desobrigam-se assim de
discutir questões substantivas para as quais as respostas são um tanto mais
complexas . Entre elas, como assegurar certa estabilidade cambial em uma quadra
em que a manipulação da liquidez pelos países ricos incide direta e
abruptamente sobre as contas externas e os índices de preços das nações e
desenvolvimento.
A omissão tem lógica. Combinar
estabilidade cambial com a sacrossanta mobilidade de capitais e a autonomia
monetária constitui uma espécie de ‘cubo mágico’ do capitalismo. Uma combinação
imiscível nos seus próprios termos. Uma impossibilidade intrínseca às economias
de mercado avessas à coordenação pública da economia e ao papel indutor do
Estado no desenvolvimento. Justamente o modelo preconizado pelo conservadorismo
como panaceia para os problemas brasileiros.
O economista e estudioso da globalização, Dani Rodrik, sobrepõe a esse
dilema clássico outro de natureza política, que condensa a falência da agenda
conservadora em nosso tempo. Rodrik chama a atenção para a incompatibilidade
histórica entre globalização, democracia e soberania nacional. O que o
prestigiado economista turco está dizendo é que o cuore da liberalização
financeira e comercial é incompatível com soberania econômica e democrática da
sociedade. Esse desassossego entre as urnas e os livres mercados --que torna
imprescindível a presença do Estado na agenda do desenvolvimento-- impede que
os seguidores nativos de Merkel, a exemplo da inspiradora, discutam seriamente
os desafios econômicos atuais. Resta-lhes o campo do moralismo. Nele, a caça às
bruxas resume, figurativamente, a aderência de suas ideias à realidade» – Saul
Leblon, no Carta
Maior. Imagem roubada ao Ladrões de Bicicletas.