«1. A mulher do ministro da
Educação e Ciência foi nomeada para o Conselho Científico das Ciências Sociais
e Humanidades da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT). Confrontada com a
situação, a “tutela” — ou seja, Nuno Crato — assevera que a nomeação foi feita
à sua revelia. Esperar-se-ia, portanto, que o ministro Crato reagisse a esta
deslealdade da secretária de Estado da Ciência, Leonor Parreira, que designou a
sua mulher sem previamente o informar.
Em rigor, assistimos a sucessivas
deslealdades que deixam o ministro em xeque: a primeira terá sido cometida por
Luísa Araújo, mulher de Crato, que não informou o marido de que se dispunha a
concorrer a um cargo numa instituição que depende hierarquicamente dele; a
segunda terá sido praticada pelo conselho directivo da FCT, cujos membros foram
escolhidos pelo ministro Crato, que não o alertou para esta bizarra situação; e
a última resulta da circunstância de a secretária de Estado da Ciência ter
omitido a melindrosa situação ao ministro. Crato, aparentemente, conformou-se
com o estado das coisas, não dando sequer um sinal de se ter sentido incomodado
com tudo isto.
Estaremos, apesar de tudo,
perante alguém que possui um curriculum vitae invejável, uma daquelas carreiras
de arrasar que abafam quaisquer atropelos éticos e jurídicos que possam ter
ocorrido? Não parece ser o caso.
Com efeito, Luísa Araújo faz
parte do corpo docente do Instituto Superior de Educação e Ciências, um
politécnico privado situado, ao que consta, ali para os lados da Alameda das
Linhas de Torres, à saída de Lisboa, onde se dedica ao ensino da “aprendizagem
da língua materna”. Será certamente uma área relevante no cocktail de formações
que o politécnico privado ministra¹:
– Cursos de especialização
como os de Técnicas de Fotografia, Gestão Hoteleira, Protecção Civil e Socorro;
– Licenciaturas
como as de Óptica e Optometria, Intervenção Comunitária, Engenharia de
Segurança do Trabalho e Educação Básica;
– Mestrados em Design, Artes e Comunicação, Tecnologias Gráficas e Educação e Desenvolvimento Humano; e
– Mestrados em Design, Artes e Comunicação, Tecnologias Gráficas e Educação e Desenvolvimento Humano; e
–
Pós-graduações em Osteopatia e Terapias Expressivas.
2. O Ministério da Educação e
Ciência — ou seja, Nuno Crato — “ressalva” que a função para que foi designada
Luísa Araújo não é remunerada. Não é verdade. O n.º 10 do artigo 9º do
Decreto-Lei n.º 55/2013, de 17 de Abril, estabelece: “Os membros dos conselhos
científicos têm direito, por cada reunião em que participem, à perceção de
senhas de presença de montante a fixar por despacho dos Ministros das Finanças
e da Educação e Ciência.”
Poderíamos estar perante um
eventual caso corriqueiro de nepotismo, mas as mudanças promovidas têm um
alcance muito mais vasto, como se verá adiante.
3. Pedro Magalhães chama a
atenção, através de vários tweets, para outra bizarria: “O Conselho Científico
de Ciências Sociais e Humanidades da FCT é agora presidido por uma antropóloga
forense”. Acrescenta o cientista político: “É a chamada interdisciplinaridade.
Espero o momento em que o Conselho de Ciências da Vida seja presidido por um
linguista.” A extravagância das mudanças conduzidas pelo Ministério da Educação
e Ciência leva Pedro Magalhães até a admitir estar a ter um pesadelo: “O Cons.
de Ciências Sociais é presidido por uma prof. do Dept. de Ciências da Vida da
U. Coimbra. Mas daqui a pouco acordo e está tudo bem.”
Antes de Nuno Crato o ter virado
do avesso, o Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da FCT era
presidido por José Mattoso e dele faziam parte personalidades com curricula à
prova de bala, como João Ferreira do Amaral.
Agora, é presidido por Eugénia da
Cunha, antropóloga forense, que se faz acompanhar, para além da mulher de Nuno
Crato, por figuras como Rui Ramos, famoso por ser co-autor de A História de
Portugal em fascículos (brinde do Expresso bruscamente no Verão passado), e
João Carlos Espada, que preside a um centro de investigação — o Instituto de
Estudos Políticos da Universidade Católica — que obteve uma péssima
classificação (situação não usual nos meios académicos) na avaliação feita por
peritos estrangeiros contratados pela FCT, ao ter sido basicamente considerado
um centro de mera propaganda ideológica e política.
4. O Conselho Científico das
Ciências Sociais e Humanidades da FCT é uma estrutura importante, dado o papel
fulcral que desempenha no financiamento da investigação científica e do
desenvolvimento tecnológico. Veja-se o que dispõe o n.º 6 do artigo 9º do
citado Decreto-Lei n.º 55/2013.
Estaremos, assim, em presença de
um assalto, levado a cabo pela direita radical, ao centro nevrálgico do
financiamento da investigação em ciências sociais em Portugal. Nem a fraca
qualidade das suas tropas inibe os neoliberais de consumar o assalto. O
propósito da revolução cultural desencadeada por Nuno Crato é ter o poder de
seleccionar e financiar as investigações em ciências sociais segundo os
critérios da direita neoliberal. O seu sonho é que, um dia, a cultura dominante
seja a mistela propagada pela Fundação Pingo Doce, à qual alguns dos membros do
Conselho Científico das Ciências Sociais e Humanidades da Fundação para a
Ciência e Tecnologia vão às sopas, incluindo a mulher de Nuno Crato (que aí
ensina a aprender uma segunda língua).
¹ Para se ter uma ideia da
qualidade do corpo docente deste politécnico privado, veja-se que aí até é dada
guarida a Pedro Picoito.» - Miguel Abrantes, no Câmara
Corporativa. Ver links no original.

