quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Agarra que é ladrão


A fraude está a custar mais de oito milhões de euros por ano aos transportes públicos de Lisboa,  diz um estudo encomendado pelo Governo. Este estudo não é sobre SWAP, é sobre a desgraça que arrisca viajar nos transportes públicos sem pagar bilhete. Sobre essa espécie de delinquência financeira mais aldrabona que se passeia impunementepelo Governo, um relatório da Carris avaliava em 114,6 milhões as perdas potenciais no final de 2012 dos contratos SWAP da empresa, e acresce referir que nestes 114,6 milhões não estão contabilizadas perdas SWAP das restantes empresas congéneres da capital. Quer isto dizer que, com outro Governo, composto por gente honesta, sei lá, dessa que não dá dinheiros públicos a ganhar aos bancos para onde vão trabalhar quando saem dos Governos, com um Governo com sensibilidade social suficiente para garantir a quem nada tem o direito a transportes públicos gratuitos, os 114,6 milhões de euros que foram derretidos em SWAP na Carris dariam para pagar bilhetes gratuitos a quem deles necessita durante 12 anos e quase quatro meses. Do acesso a transportes públicos grátis retirar-se-ia toda a utilidade social. Dos SWAP não se retirou nenhuma. A diferença entre uma coisa e a outra é bastante maior do que os 12 anos e tal. Estamos a anos-luz quer de mínimos de decência, quer da mais elementar justiça social.


Vagamente relacionado: A Federação de Sindicatos dos Transportes e Comunicações (Fectrans) defendeu nesta quinta-feira que o aumento da fraude dos transportes na região de Lisboa está ligado à “política cega” de redução de trabalhadores. “O aumento da fraude nas empresas de transportes na região de Lisboa não pode ser desligado do aumento das dificuldades das pessoas e também da política cega de redução de trabalhadores, nomeadamente em áreas operacionais das empresas”, refere a Fectrans num comunicado agora divulgado.

O centrão e a brandura da violência


Os malefícios da austeridade e os benefícios de uma austeridade light. A ideia, que tem sido defendida internamente pelo PS, é uma das principais teses defendidas num relatório ontem tornado público pelo FMI. Qual a carga de austeridade que deve ser imposta num país que tenha como objectivo a consolidação das suas contas públicas? Em linha com outros estudos que já vinham publicando nos últimos meses, os técnicos do FMI arrasam a ideia – até aqui central nas políticas do Fundo em programas de países como Portugal – de que pode haver "consolidações orçamentais expansionistas", ou seja, que, ao corrigir défices excessivos, um Governo poderia estar a ajudar a economia, já que aumentaria a confiança dos agentes económicos. Os técnicos do FMI dizem agora que "os mais famosos episódios de contracções expansionistas na Europa nos anos 80 e 90 foram criados mais pela procura externa do que interna" e que "não parece que efeitos de confiança tenham desempenhado um papel importante nesta crise". Por outras palavras, aquela conversa da confiança era treta. Andaram a destruir vidas, a desmantelar serviços públicos e a arrasar sociedades inteiras em nome de uma treta. Uma treta que enriqueceu uma minoria à custa do empobrecimento, tantas vezes desesperado, da restante maioria, é bom não esquecer o móbil do crime. Por essa exacta razão, uma treta a prolongar o mais possível.

Sétima e oitava avaliação da troika, campanha das autárquicas, oportunidade para António José Seguro brilhar. O secretário-geral do PS disse ontem num comício em Aveiro que na reunião que terá hoje com os responsáveis da troika irá defender que a meta do défice em 2014 fique pelo menos nos 5%, em vez dos 4,5 pretendidos pelo Governo e dos 4 defendidos pela troika. Aqui está ela, a austeridade light, e light apenas na brandura das palavras escolhidas. Certas declarações valem pelas abordagens que evitam. Repare-se que nestes 4, 4,5 ou 5%, tanto faz, estão os juros usurários que pagamos à troika, a fortuna que pagamos em PPP, os milhares de milhões que pagamos em SWAP e o balúrdio que pagamos em rendas garantidas a sectores como o da energia. Seguro fala na intensidade da austeridade e, tal como o Governo, evita a questão da sua composição

Qual é afinal o valor do nosso défice orçamental sem contar com estas parcelas é abordagem raramente vista na nossa comunicação social e pouco e mal trabalhada pela restante oposição. Daí o àvontade com que António José Seguro, também o Governo, podem atirar para o ar a ideia de uma austeridade cheia de virtudes por ser mais branda sem que se lhes note a relutância em fazerem o que deviam e não querem fazer. E note-se que PS, PSD e CDS estão em todas: nos juros usurários que não negociaram com a troika quando assinaram de cruz o memorando sem sequer saberem qual a taxa que nos poriam a pagar, que continuam a não querer negociar, nas PPP que uns e os outros foram assumindo a juros que em muitos casos ultrapassam os 14% ao ano, contratos leoninos que o Governo não anulou e que o PS evita exigir que sejam anulados, o festival SWAP do tempo de Sócrates que a mentira e a irresponsabilidade da era Passos Coelho fez chegar ao presente e todas as rendas garantidas às clientelas partilhadas por todos os partidos deste centrão de interesses, das quais nunca os ouvimos falar. Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e António José Seguro transmitem a ideia da necessidade de tornar a austeridade mais branda. Mantendo todos estes roubos, a austeridade será sempre violenta. Como qualquer roubo com estas dimensões.

Vagamente relacionado: A agência de notação financeira internacional Standard & Poor's anunciou esta quarta-feira que o rating atribuído a Portugal está agora sob "vigilância devido à ameaça de um segundo resgate, o que significa, de acordo com as definições da instituição, que existem agora 50% de hipóteses de um corte ser concretizado durante os próximos meses. Está tudo a correr bem. Para que haja mais cortes. A chantagem do costume.