«Aos 15 anos, Nito Alves teve uma
ideia simples e generosa: a de partilhar informação crítica sobre o quotidiano
do país, com os seus vizinhos e transeuntes. Desde o início da primavera árabe,
em 2011, Nito Alves tem realizado o seu projecto através de um mural móvel que
exibe frente à porta da sua residência, em Viana, Luanda. Semanalmente, o jovem
seleciona algumas páginas dos semanários, com matérias críticas, e cola-as num
grande placar de madeira, o seu mural. A sua ideia gerou dezenas de leitores
diários, entre vizinhos e transeuntes, que se detêm à sua porta para se
informarem. Por essa iniciativa e pela sua participação em manifestações
anti-regime, Nito Alves tornou-se uma figura de referência no Bairro do
Chimuco, no município de Viana, onde reside.
Em Dezembro passado, agentes da
Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) e da Polícia Nacional,
cercaram a residência dos seus pais por volta das 3h00 da madrugada para o
prenderem. “A polícia revistou até debaixo da minha cama, onde eu estava a
descansar com a minha esposa. Nessa altura, o meu filho já tinha abandonado a
nossa casa, por causa das perseguições da polícia e de militantes do MPLA”,
disse o pai Fernando Baptista. Aos 16 anos, Nito Alves tornou-se um foragido
político.
Nito Alves foi detido a 12 de
Setembro, em condições rocambolescas. A sua prisão, segundo testemunhos
recolhidos em Viana, teria sido inicialmente planeada pelas forças policiais
como um “desaparecimento”. Os agentes da Polícia Nacional agarraram-no na rua.
Nito Alves gritou o seu nome e pediu, a quem o ouvisse, para alertar a Rádio
Despertar a dar conta do caso. Um transeunte fê-lo de seguida. A principal
acusação, formulada pelos investigadores da Polícia Nacional contra Nito Alves,
foi a deste ter incorrido no acto de difamação do presidente José Eduardo dos
Santos.
Na realidade, o trabalho combinado da Polícia
Nacional, da Direcção Nacional de Investigação Criminal e da Procuradoria-Geral
da República acabaram por causar mais danos à imagem do presidente do que o
Nito Alves. Primeiro, a detenção do jovem ocorreu horas antes do início do Fórum
Nacional da Juventude, uma encenação que juntou mais de 3,000 participantes
para ouvirem um discurso do presidente dirigido à juventude. Segundo, a
conferência de imprensa da Polícia Nacional, na sexta-feira, prova, de forma
clara, que o regime do presidente José Eduardo dos Santos é uma ditadura. Numa
democracia não se prendem pessoas que pretendem manifestar-se pacificamente
contra o governo ou jovens que usam camisolas a chamar ditador ao presidente.
Isso é um sinal de que o regime não tem qualquer tolerância para com a
liberdade de expressão dos seus cidadãos. Ditador, ladrão, corrupto, são
insultos comuns aos governantes em democracia. Para além do seu tom de
brutalidade, o comunicado da Polícia Nacional é ridículo e reminiscente… Quantas
pessoas teriam sabido da existência das 20 camisolas ofensivas à imagem de Dos
Santos?
Além disso, durante o seu
interrogatório e na cela da esquadra do Capalanca, onde passou a primeira
noite, antes de ser transferido para as celas da Direcção Provincial de Investigação
Criminal (DPIC), Nito Alves revelou os seus dons de mobilização. Politizou os
outros detidos sobre o regime e os seus actos e juntos fizeram coro contra as
injustiças, para irritação dos seus guardas.
Agora, o Nito Alves, aos 17 anos,
é uma figura de referência contra o regime corrupto do presidente José Eduardo
dos Santos. Essa é uma proeza da Polícia Nacional que o encarcerou. É aqui que
o servilismo, a incompetência e a propaganda começam a ter um efeito
contraproducente e irreversível. Estão a dar corpo e crédito ao movimento
popular de contestação ao regime.» – Maka Angola.