«O governo aprovou, na última
quinta-feira, sem grande debate nacional, a possibilidade de financiamento
direto aos alunos de colégios privados (até agora esse apoio era dado a
turmas). No anteprojeto de lei, nenhuma carência de oferta pública tem de justificar
este apoio. Não há sequer qualquer referência a dificuldades económicas dos
subsidiados pelo Estado. Na prática, com os "contratos simples de apoio à
família", o Estado passa a tratar os colégios particulares da mesma forma
que trata as escolas públicas (o próprio Crato o confirmou), abatendo na
propina do aluno do privado o mesmo que calcula gastar num aluno do Estado.
Acontece que os colégios privados
têm vagas finitas. Por isso, basta que haja mais candidatos do que vagas para
os alunos terem de ser selecionados. E os critérios de seleção são sempre dois:
captar os melhores alunos, para subirem no ranking e serem competitivas, e
evitar problemas sociais e disciplinares. Ninguém no seu prefeito juízo
acredita que alguma escola privada dispensará, de forma formal ou informal,
esta prerrogativa de seleção.
Na realidade, poucos colégios têm
ofertas pedagógicas muito diferenciadas em relação ao sistema público. É mais
desta capacidade de seleção que a maioria dos colégios vive. Seleção que lhes
permite garantir melhores resultados. Não perder tempo com alunos com
necessidades educativas especiais, com indisciplina e com problemas sociais é
mais do que meio caminho andado para ter um ambiente escolar mais seguro e
melhores resultados académicos. É natural que os pais prefiram que os seus
filhos estudem neste ambiente mais protegido e selecionado.
De uma forma ou de outra, as
escolas privadas continuarão a querer ficar com os melhores alunos e os que não
representem qualquer dificuldade social ou disciplinar: meninos não
problemáticos de famílias ricas ou de classe média e, com este financiamento,
os melhores alunos das famílias carenciadas. Tudo isto com financiamento
público (e não, como seria normal e já acontece em alguns colégios, através do
mecenato e de bolsas da própria escola). O que quer dizer que as escolas
públicas ficarão com o que sobra: os problemas sociais e disciplinares e os
alunos com necessidades especiais. Que pai quererá ter o seu filho numa escola
que é um ghetto? O que não puder escolher.
O Estado financiará, através dos
impostos de todos, um sistema de ensino dual, com escolas para ricos e bons
alunos e escolas para pobres e maus alunos. Este sistema de "apartheid
escolar", que simpaticamente nos é vendido como sinal de liberdade de
escolha, apenas anulará a principal função da escola pública: garantir a
igualdade de oportunidades, sem a qual a liberdade é uma mera ilusão.
Em Portugal não é obrigatório ter
os filhos nas escolas públicas. As pessoas têm a liberdade de escolher se os
querem no ensino público ou privado, em escolas laicas ou religiosas, em
escolas portuguesas ou estrangeiras. O que está em debate não essa liberdade,
que está garantida e é legítima, mas se o Estado está obrigado a fornecer um
serviço público universal e gratuito ou se essa obrigação se estende ao
subsídio a empresas privadas que se dedicam à educação.
Neste anteprojeto de lei o Estado
apenas garantirá o financiamento até ao que custa um aluno no sistema público.
O que quer dizer que, para os mais carenciados, a liberdade de escolha está
limitada a escolas que cobrem abaixo desses preços. Acima disso, teremos
famílias ricas, que hoje pagam os colégios sem qualquer financiamento público,
a serem subsidiadas para terem os seus filhos nos colégios mais caros do País.
Só elas poderão pagar o dinheiro que ainda fica a faltar depois da ajuda do
Estado. Só elas continuarão a poder exercer plenamente a liberdade de escolher,
entre todas, a escola do seu filho. Porque a liberdade de escolha é sempre
finita. E a forma mais justa de a garantir é criar as condições para que as
escolas públicas sejam atrativas para todos. Escolas interclassistas e de
qualidade. O que implica recursos financeiros que esta estratégia desviará para
colégios que têm como objetivo (legítimo) o lucro.
Mas vale a pena não ficar apenas
no terreno dos princípios. Conhecemos o País onde vivemos. Sabemos como faz o
Estado negócios com os privados. E até temos alguma experiência no
financiamento público de colégios privados, através dos contratos de
associação. Um dos exemplos foi relatado pela TVI e dei nota dele num dos meus
textos: a GPS, um grupo privado com 24 escolas. Um grupo que, apesar de piores
condições do que as escolas públicas vizinhas, conseguiu, através de bons
contactos no Ministério, desviar alunos que o público tinha condições para
receber para as suas escolas.
Pode dar-se o caso deste
anteprojeto de Lei resultar apenas do fanatismo ideológico de Crato. Mas não
deixa de ser curioso que isto surja num momento em que milhares de famílias de
classe média retiram, por falta de condições financeiras, os seus filhos das
escolas privadas. O que está a causar enormes problemas a muitos colégios. Mas
que era, ironicamente, uma excelente notícia para as escolas públicas, que viam
a classe média a regressar, garantindo uma escola mais interclassista, como
existia nos anos 80. Nada que entusiasme o ministro. Enquanto continua os
cortes na Educação e inicia um ano letivo com o caos instalado nas escolas
públicas, Crato parece estar mais interessado em gastar as suas energias e os
nossos impostos para salvar os colégios em aflição.» - Daniel Oliveira, no
Expresso.