sábado, 7 de setembro de 2013

"Queremos"?


Lista de países bombardeados pelos Estados Unidos, alegadamente para restabelecer a democracia:

1 - China 1945-1946

2 - Coreia 1950-1953

3 - China 1950-1953

4 - Guatemala 1954

5 - Indonésia 1958

6 - Cuba 1959-1960

7 - Guatemala 1960

8 - Congo Belga 1964

9 - Guatemala 1964

10 - República Dominicana 1965-1966

11 - Peru 1965

12 - Laos 1964-1973

13 - Vietname 1961-1973

14 - Cambodja 1969-1970

15 - Guatemala 1967-1969

16 - Líbano 1982-1984

17 - Granada 1983-1984

18 - Líbya 1986

19 - El Salvador 1981-1992

20 - Nicarágua 1981-1990

21 - Irão 1987-1988

22 - Libya 1989

23 - Panamá 1989-1990

24 - Iraque 1991

25 - Kuwait 1991

26 - Somália 1992-1994

27  - Bósnia 1995

28  - Irão , 1998

29 - Sudão -, 1998

30 - Afeganistão, 1998

31 - Sérvia 1999

32 - Afeganistão , 2001

33  - Iraque 2003

34  - Líbya 2011

 

35 - Vagamente relacionado: “Queremos uma resposta clara e forte”, afirmou a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, no final de um encontro dos ministros dos Negócios Estrangeiros dos Vinte e Oito, em que terá sido atingida uma posição comum mínima entre os Estados-membros sobre a reacção internacional aos ataques de 21 de Agosto. Não sei quem é a senhora, mas aquele "queremos" inclui-me. E eu não quero.

Brincar com o fogo


Talvez devesse esperar um pouco mais para escrever isto. A última morte de um bombeiro acaba de ser noticiada e os ânimos continuam muito exaltados. Porém, nós somos assim, exaltamo-nos ao sabor da espuma dos dias e depois deixamos os temas morrer. E depois morre mais gente, e depois exaltamo-nos outra vez, e depois o tema volta a morrer e volta a morrer mais gente.

Este ano morreram muitos bombeiros. Quase todos voluntários, senão mesmo todos, se prestarmos alguma atenção. Entre notícias de mortes, correu o apelo: amanhã, dirija-se à corporação de bombeiros mais próxima e preste a sua homenagem a estes heróis. Sem dúvida, heróis. Homenagem, discordo. Por regra, evito associar-me a movimentos de manada. Correspondem mais a fenómenos de imitação em que o instinto é deixado à solta  do que a actos reflectidos de cidadãos que sabem quem são e o que querem. E não, não somos todos bombeiros. Nunca somos todos isto ou aquilo. Somos todos diferentes. E, ainda que fossemos todos bombeiros, e não somos, há bombeiros e bombeiros, bombeiros voluntários e bombeiros profissionais.

Não correspondi ao apelo do euro que alguém sustentou todos nós deveríamos ir entregar à corporação mais próxima o mais rapidamente possível. Não fui porque o meu euro serviria para alimentar um modelo que não quero alimentar. Não fui por não querer continuar a ver pessoas sem qualquer formação a quem fornecem uma farda que não protege como deveria e põem uma mangueira na mão para depois os lançarem às chamas. Não é o hábito que faz o monge, também não é a farda e a mangueira que fazem o bombeiro. O monge não corre perigo de vida. O bombeiro corre-o. Já morreram oito este ano e continuam outros tantos hospitalizados em Estado grave.

Dir-me-ão, e estou completamente de acordo, que se não houvesse voluntários não haveria gente em número suficiente para combater os fogos. É precisamente aqui que queria chegar. O Estado que é gordo nas PPP, nos SWAP, nos BPN é demasiado magro nesta função que é sua e só sua. E os últimos dois anos, que foram anos de injecções de largos milhares de milhões de euros no sector financeiro, foram anos de cortes orçamentais que afectaram as corporações de bombeiros profissionais. As "poupanças", termo utilizado pelo Governo e pela sua imprensa aos cortes que no caso dos bombeiros já somam oito mortes como sua contrapartida, obrigaram à supressão de horas extraordinárias, à transferência de serviços de corporações de bombeiros sapadores e municipais, bombeiros especializados e com formação,  para  corporações de voluntários e os bombeiros profissionais foram objecto das reduções salariais que foram aplicadas em toda a Administração Pública.

Um euro, então, para quê? Para fortalecer a ideia de que um trabalho especializado pode ser assegurado por voluntários sem formação sequer para avaliarem o perigo? Para fortalecer o miserabilismo doentio que valoriza o trabalho gratuito como sacrifício redentor de pecados financeiros cometidos por terceiros, entre os quais alguém que enriquece com o aluguer de meios aéreos de combate aos fogos? Para financiar corporações que servem de trampolim para voos autárquicos a caciques locais e de onde há fundadas suspeitas que o dinheiro sai para financiamentos partidários à margem da lei? Para ajudar a pagar os 10 euros diários que recebem os jovens desempregados que depois são lançados às chamas de mangueira na mão? Um euro para brincar com o fogo, não, obrigado.