Talvez devesse esperar um pouco
mais para escrever isto. A última morte de um bombeiro acaba de ser noticiada e
os ânimos continuam muito exaltados. Porém, nós somos assim, exaltamo-nos ao
sabor da espuma dos dias e depois deixamos os temas morrer. E depois morre mais
gente, e depois exaltamo-nos outra vez, e depois o tema volta a morrer e volta
a morrer mais gente.
Este ano morreram muitos
bombeiros. Quase todos voluntários, senão mesmo todos, se prestarmos alguma
atenção. Entre notícias de mortes, correu o apelo: amanhã, dirija-se à
corporação de bombeiros mais próxima e preste a sua homenagem a estes heróis.
Sem dúvida, heróis. Homenagem, discordo. Por regra, evito associar-me a
movimentos de manada. Correspondem mais a fenómenos de imitação em que o
instinto é deixado à solta do que a
actos reflectidos de cidadãos que sabem quem são e o que querem. E não, não
somos todos bombeiros. Nunca somos todos isto ou aquilo. Somos todos
diferentes. E, ainda que fossemos todos bombeiros, e não somos, há bombeiros e
bombeiros, bombeiros voluntários e bombeiros profissionais.
Não correspondi ao apelo do euro
que alguém sustentou todos nós deveríamos ir entregar à corporação mais próxima
o mais rapidamente possível. Não fui porque o meu euro serviria para alimentar
um modelo que não quero alimentar. Não fui por não querer continuar a ver
pessoas sem qualquer formação a quem fornecem uma farda que não protege como deveria e põem uma mangueira na mão para depois os lançarem às
chamas. Não é o hábito que faz o monge, também não é a farda e a mangueira que
fazem o bombeiro. O monge não corre perigo de vida. O bombeiro corre-o. Já
morreram oito este ano e continuam outros tantos hospitalizados em Estado
grave.
Dir-me-ão, e estou completamente
de acordo, que se não houvesse voluntários não haveria gente em número
suficiente para combater os fogos. É precisamente aqui que queria chegar. O
Estado que é gordo nas PPP, nos SWAP, nos BPN é demasiado magro nesta função
que é sua e só sua. E os últimos dois anos, que foram anos de injecções de
largos milhares de milhões de euros no sector financeiro, foram anos de cortes
orçamentais que afectaram as corporações de bombeiros profissionais. As
"poupanças", termo utilizado pelo Governo e pela sua imprensa aos
cortes que no caso dos bombeiros já somam oito mortes como sua contrapartida,
obrigaram à supressão de horas extraordinárias, à transferência de serviços de
corporações de bombeiros sapadores e municipais, bombeiros especializados e com
formação, para corporações de voluntários e os bombeiros
profissionais foram objecto das reduções salariais que foram aplicadas em toda
a Administração Pública.
Um euro, então, para quê? Para
fortalecer a ideia de que um trabalho especializado pode ser assegurado por
voluntários sem formação sequer para avaliarem o perigo? Para fortalecer o
miserabilismo doentio que valoriza o trabalho gratuito como sacrifício redentor de
pecados financeiros cometidos por terceiros, entre os quais alguém que enriquece
com o aluguer de meios aéreos de combate aos fogos? Para financiar corporações que
servem de trampolim para voos autárquicos a caciques locais e de onde há fundadas
suspeitas que o dinheiro sai para financiamentos partidários à margem da lei? Para
ajudar a pagar os 10 euros diários que recebem os jovens desempregados que depois
são lançados às chamas de mangueira na mão? Um euro para brincar com o fogo, não,
obrigado.