segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um Kyoto invertido


O Homem e as suas múltiplas dimensões. Na dimensão de cidadão consciente do seu papel na construção da sociedade em que vive e empenhado na tarefa que é de todos de torná-la cada vez melhor. Na de trabalhador que vende a sua força de trabalho a um preço que determina a sua qualidade de vida e determinado por regras que resultaram da evolução da sua comunidade. E na de consumidor, uma dimensão que tantas vezes se sobrepõe à de cidadão, embora a grande maioria seja consumidor na exacta medida das condições que a sua sociedade lhe ofereça enquanto trabalhador.

Toda esta introdução a propósito de uma notícia e da forma como é dada. "Acordo de comércio na OMC 'dá' 1 bilião de dólares à economia mundial". Desenganem-se todos aqueles que abdicam de ser mais do que meros consumidores. Não, não vamos ficar todos ricos. Aquele bilião não é para ser redistribuído por mais do que uma pequena minoria. Não é à toa que o artigo termina com uma declaração de alívio de Bruno Maçães, esse filho da Pátria que ficou conhecido como o "alemão" pela forma categórica como recusou que Portugal integrasse uma aliança de países do Sul da Europa que começam a organizar-se na resposta, que se torna cada vez mais urgente, a uma ditadura financeira da qual apenas tem beneficiado a grande Alemanha e um sector financeiro que enriquece à sombra de uma regra que lhes concede o exclusivo da liquidez a baixo custo junto do BCE.

Diz-nos este nosso compatriota, membro do Governo que durante os últimos três anos mais embarateceu o custo do factor trabalho em toda a Europa, que o acordo alcançado, um Kyoto invertido, era "quase uma condição prévia para Portugal dar o salto" nos mercados globais. E já está. As empresas portuguesas produtoras de bens transaccionáveis terão a partir de agora ainda menos barreiras que as protejam da concorrência desleal de congéneres localizadas em países com salários de 40 euros mensais, jornadas de trabalho diárias de 12horas multiplicadas por seis dias na semana, sem quaisquer regras mínimas de segurança no trabalho e sem quaisquer restrições ambientais.

Reduzir salários ou deslocalizar investimentos, em ambos os casos produzindo desemprego, fazem parte do "salto" que o nosso Maçães assinala como positivo em nome do Governo português. Nada de extraordinariamente novo: "temos que ser competitivos", e agora ainda mais, que é como quem diz temos que aceitar empobrecer para que se forme o tal bilião nas fortunas da minoria que estes senhores representam. Cidadãos trabalhadores, conscientes daquilo que são, com toda a certeza não se surpreenderão que a partir de agora a existência de um salário mínimo comece a ser questionado com cada vez mais insistência. E também não será surpresa nenhuma que esse regresso ao passado encontre apoios entre aqueles que, moldados à imagem do que gostariam de ser, irão desfrutar das novas maravilhas da globalização enquanto não descobrem que os seus salários se reduziram ainda mais do que os preços dos pequenos luxos que os fazem sentir gente. Ou arranjamos forma de fazer melhor do que até aqui, ou empobreceremos todos, não apenas esta subespécie de amorfos amputados de ideais.

Sem comentários: