segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

O sucesso português


Pela décima vez, três amanuenses da troika andaram por cá a avaliar... coisas. Coisas que nada têm que ver com vidas destruídas, com a miséria de centenas de milhar de portugueses, com meses inteiros a trabalhar no duro para se chegar ao mês seguinte ainda mais pobre, com salários que equilibram pela fome e pela necessidade a nossa balança comercial. Pela décima vez, os amanuenses dos amanuenses convocaram as câmaras e os microfones para dizerem ao país... coisas.

Passámos na avaliação dos amanuenses que avaliam se estão ou não satisfeitos com o tudo que andamos a trabalhar para pagar os juros que nos cobram a preço de amigo agiota? Passámos! Senhores amanuenses dos amanuenses, vamos ou não ter plano cautelar? Ainda não sabemos. Já combinaram com os chefes amanuenses o plano B para nos sacarem o dinheirinho que lhes prometeram caso o Tribunal Constitucional inviabilize o Orçamento? Oh! Não vamos antecipar cenários. Ai não? Não! Meus amigos, nós estamos a seis meses de regressar aos mercados, não é hora para corrigir trajectórias, é hora de concluir a trajectória que até aqui nos trouxe, ouviu-se em tom irrevogável.

Logo a seguir, falou Mario Draghi, patrão dos chefes amanuenses. Para dizer que vamos ter segundo resgate, com ou sem alcunha de "plano cautelar". Não é que o Tribunal Constitucional seja digno de confiança. Já todos percebemos como aquela gente é permeável à pressão. Seria um absurdo que dessem conformidade constitucional a uma norma que dissesse qualquer coisa como "os funcionários públicos ficam obrigados a trabalhar gratuitamente mais uma hora por dia sempre que o volume de serviço o justifique". E deram conformidade constitucional a absurdo ainda maior, uma hora suplementar de trabalho diário sem remuneração adicional, haja ou não volume de serviço que o justifique. Mas Mario Draghi disse o que já há muito sabíamos: que não vamos regressar aos mercados no fim do programa de "assistência" coisíssima nenhuma. E nada a ver com o que digam aqueles senhores do Constitucional. "Portugal vai ter um programa depois do resgate, não se sabe é qual", é o que nos diz o Presidente do BCE antes de ser conhecido o veredicto do TC. A austeridade ainda tem muito caminho para andar. É que está tudo a correr pelo melhor. Ou quase.

1 comentário:

De NRA disse...

A ideia de que a apresentação do Orçamento do Estado mais austero desde 1977, com um corte equivalente a 2,3% do PIB, pode levar a um caminho de retoma económica só existe na cabecinha dos economistas neoliberais da troika.

Nas ruas o que se verifica é que existe um desemprego real superior a 20% da população, que só foi estatisticamente reduzido nos últimos dois trimestres pela emigração forçada de quase 250 mil pessoas nos últimos anos, entre a população mais jovem e mais bem preparada. E a sangria continua. No recente concurso para apoio à investigação, o resultado foi o real despedimento de quase 1500 doutorados.

A crise bate sempre à mesma porta: 82% do esforço austeritário vai ser pago por trabalhadores e reformados. Como escreve Cristina Semblano, professora de Economia Portuguesa na universidade de Paris, no diário francês "Libération", cada euro "economizado" pela política da troika em Portugal traduziu-se numa quebra de 1,25 euros no PIB e um aumento de 8,76 euros na dívida. O plano da troika serve para garantir que vamos ficar a dever para sempre. Bem pode o ministro Paulo Portas pôr um relógio a dizer que falta pouco para eles irem embora - ele sabe que é mentira
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