terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Batatas à BdP


Na última vez que apresentou previsões para 2014, no boletim de Verão, o banco central apontava para uma contracção de 1,4% no consumo privado em 2014. E apresentava este resultado sem levar em conta os impactos de eventuais medidas de austeridade que viessem a estar, como estão, previstas no Orçamento do Estado para 2014. Agora, mesmo sabendo que a austeridade será ainda mais severa, incluindo cortes nos salários dos funcionários públicos entre 2,5 e 12% e uma redução de 10% nas pensões da CGA—, o Banco de Portugal aponta para um crescimento do consumo de 0,3%, justificando a sua previsão numa segunda, a de que o emprego irá recuperar ligeiramente. Como não há duas sem três, esta segunda previsão justifica uma terceira, a de que os portugueses recuperarão a confiança e, como tal, quarta previsão, pouparão menos e consumirão mais. Destas quatro previsões resulta ainda uma quinta, a de que o PIB irá crescer 0,8% em 2014, isto apesar da redução prevista de 2,3% no consumo público e contando com, nova previsão, uma recuperação espectacular do investimento privado, da contracção de 8,4 % verificada em 2013para uma expansão de 1% em 2014, quem sabe provocada pelo aumento de 5,5% previsto nas exportações. Resumindo, o PIB vai crescer porque em Portugal o consumo variará muito menos em função da massa salarial e muito mais em função de uma confiança que não se deixa abalar nem com a simplificação dos despedimentos, nem com a redução das protecções no desemprego. A economia pode realmente tornar-se uma batata quando quem a cozinha recebe pela tabela salarial do Banco de Portugal.


Vagamente relacionado: O assistente social da Junta de Freguesia de Campanhã, no Porto, que foi nesta terça-feira homenageado na Assembleia da República, propôs trocar a medalha de ouro por políticas que não causem mais estrago na vida dos que deixaram de dar lucro. José António Pinto foi um dos homenageados no âmbito do Prémio Direitos Humanos, anualmente entregue pela Assembleia da República, tendo aproveitado para dedicar a medalha de ouro dos 50 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos aos seus utentes e aos seus pobres. Perante uma plateia de várias dezenas de pessoas, entre a presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, o júri do prémio e vários deputados, o assistente social disse estar disposto a trocar aquela medalha de ouro por outro desenvolvimento económico. “Deixo ficar esta medalha no Parlamento se os senhores deputados me prometerem que, futuramente, as leis aprovadas nesta casa não vão causar mais estragos na vida daqueles que, por terem deixado de dar lucro, são hoje considerados descartáveis”, disse José António Pinto, tendo recebido um forte aplauso. Aproveitou para lembrar que enquanto fala, mais de 120 mil pessoas deixaram já Portugal, cerca de meio milhão de crianças perdeu o abono de família, 140 mil jovens estão desempregados e a maior parte dos idosos recebem uma reforma miserável.

Ainda mais vagamente: No último ano, os trabalhadores perderam em média 2,3% do salário efectivo e deram à empresa uma semana e meia de trabalho a mais, sem qualquer retribuição adicional. Já as empresas viram os seus rendimentos aumentar entre os 2100 e os 2500 milhões de euros, por via da redução dos custos com os trabalhadores e do aumento dos dias de produção. Este é o balanço das alterações ao Código do Trabalho, em vigor desde Agosto de 2012, e faz parte do relatório do Observatório sobre Crises e Alternativas que será apresentado esta quarta-feira em Lisboa.

2 comentários:

fb disse...


Da última vez que apresentou previsões para 2014, no boletim de Verão, o banco central apontava para uma contracção de 1,4% no consumo privado em 2014. E apresentava este resultado sem levar em conta os impactos de eventuais medidas de austeridade que viessem a estar, como estão, previstas no Orçamento do Estado para 2014. Agora, mesmo sabendo que a austeridade será ainda mais severa, incluindo cortes nos salários dos funcionários públicos entre 2,5 e 12% e uma redução de 10% nas pensões da CGA—, o Banco de Portugal aponta para um crescimento do consumo de 0,3%, justificando a sua previsão numa segunda, a de que o emprego irá recuperar ligeiramente. Como não há duas sem três, esta segunda previsão justifica uma terceira, a de que os portugueses recuperarão a confiança e, como tal, quarta previsão, pouparão menos e consumirão mais. Destas quatro previsões resulta ainda uma quinta, a de que o PIB irá crescer 0,8% em 2014, isto apesar da redução prevista de 2,3% no consumo público e contando com, nova previsão, uma recuperação espectacular do investimento privado, da contracção de 8,4 % verificada em 2013para uma expansão de 1% em 2014, quem sabe provocada pelo aumento de 5,5% previsto nas exportações. Resumindo, o PIB vai crescer porque em Portugal o consumo variará muito menos em função da massa salarial e muito mais em função de uma confiança que não se deixa abalar nem com a simplificação dos despedimentos, nem com a redução das protecções no desemprego. A economia pode realmente tornar-se uma batata quando quem a cozinha recebe pela tabela salarial do Banco de Portugal.

Anónimo disse...

Vagamente relacionado:
Os mil postos de trabalho prometidos pela Martifer para Viana já vão nuns estratosféricos 160.
Mais uns dias e ainda anunciam que vão arrasar os estaleiros e fazer um parque de estacionamento.