quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

À espera de D. Sebastião

E se a Europa voltasse a ser aquela Europa solidária que vinha nos tratados, a Europa da coesão económica e social, aquela Europa para a qual entrámos e que nos prometeu que nos ajudaria a recuperar do atraso dos anos da ditadura? E se os países mais ricos puxassem pelo desenvolvimento dos mais pobres em vez de lhes imporem uma austeridade que, porque os condena a uma regressão a todos os níveis, ainda agrava mais as assimetrias no espaço europeu? Hoje acordei a pensar nisto.
Os temas misturam-se, os argumentos baralham-se, a questão é realmente complexa. Porém, todo este pesadelo entronca numa regra absurda mas nada ingénua, criada por um défice democrático de uma Europa administrada por um directório que não responde perante os cidadãos e mantida por várias interpretações bastante livres do conceito de interesse nacional: a regra que impede o BCE de ceder liquidez aos Estados a um preço pelo menos igual àquele a que empresta ao sector financeiro a liquidez que este depois reempresta aos estados a um preço 30, 40, 60 vezes maior.
Não há qualquer razão de natureza técnica que impeça a revogação desta regra. Antes pelo contrário, ela é uma originalidade do euro sem equivalente em mais nenhuma moeda no mundo. Esta proibição que impede o BCE de auxiliar países em dificuldades mais não é do que uma escolha política com objectivos bem definidos. Entre a Europa dos cidadãos e a Europa da finança , a escolhida foi aquela que melhor assegura o objectivo da recapitalização de uma banca com um amontoado de imparidades  coleccionadas ao longo de mais de duas décadas, cujo valor ainda hoje é mantido no segredo dos deuses aos cidadãos que estão a pagar do seu bolso  as nacionalizações assim evitadas, e simultaneamente também aquela que possibilitaria, como acabou por possibilitar, a reconfiguração social da proletarização generalizada de sociedades inteiras e da privatização das suas conquistas sociais.
Porventura a  maior curiosidade de todo este absurdo, que tem ganhadores e perdedores perfeitamente identificáveis, e que o torna ainda maior, é o apoio que os perdedores dão a políticas que os põe a trabalhar mais, mais barato e à mercê de despedimentos facilitados e com protecções cada vez menores no desemprego, escolhas políticas que os empurram para um desemprego do qual o poder os culpa apesar de reconhecidamente ser fruto da devastação económica provocada por uma austeridade que ou apoiam ou não combatem, políticas que lhes limitam as protecções no desemprego , que lhes retardam as idades de saída e de entrada no mercado de trabalho, escolhas que lhes racionam o acesso a Educação e cuidados de Saúde de qualidade, que tornaram a Cultura um luxo, que os desapropriam de empresas que eram públicas e foram - continuam a ir - parar a mãos privadas a preços irrisórios. Tudo isto graças a uma “emergência” criminosa que empobrece a maioria para enriquecer uma minoria. Uma emergência que , em última análise, apenas existe porque o BCE está proibido de emprestar barato aos estados e há juros caros a pagar aos bancos. Tal como ganhar, perder também vicia. E, se existe uma minoria de viciados em ganhar, tal facto muito fica a dever à existência desta turba de viciados em perder.
São eles que formam a primeira barreira a qualquer esboço de proposta que seja apresentada no sentido de uma Europa mais solidária e promotora de uma coesão económica e social da qual, ricos e pobres, do centro ou da periferia, todos sairiam a ganhar. Exceptuando o sector financeiro, aquela tipologia de empresário explorador de mão-de-obra tendencialmente gratuita  e demais ganhadores de uma crise feita à medida  da sua ganância, Seria do interesse comum que o BCE passasse a ceder liquidez directamente aos estados sem qualquer intermediário e cobrando juros indexados ao crescimento económico do país devedor. Note-se como com um mecanismo assim concebido os credores passariam a estar entre os principais interessados no regresso ao crescimento de países em dificuldades. Note-se também o efeito que teria sobre os salários, a partir de então desejavelmente  decentes, de forma a impulsionar uma retoma do consumo capaz de gerar os empregos e a actividade económica necessários ao crescimento do PIB. Finalmente, sublinhem-se os efeitos de uma política salarial expansionista quer no equilíbrio das contas públicas e da segurança social, quer sobretudo no equilíbrio do défice organizacional de empresas que continuam a poder contar com mão-de-obra barata para compensar ineficiências na sua organização. 
E não, nada disto é “utopia” nenhuma, como imediatamente se ouviria ao coral dos perdedores: se a Alemanha não tivesse podido contar com um empréstimo em moldes semelhantes, em vez do investimento público que criou o emprego que reconstruiu o país a seguir à II guerra mundial, os alemães teriam tido que ver-se a contas com juros suficientemente altos para punir os excessos do nazismo e não teriam vivido o crescimento económico que os catapultou para o que hoje são. Evidentemente, souberam negociá-lo, sem medo de reivindicar e sem nunca chamarem “utopia” à solidariedade que lhes deu condições para poderem trabalhar para o que conseguiram ser depois. Foi isto que nunca reivindicámos, todo o contrário de reivindicar. E o pesadelo não vai terminar enquanto não o fizermos.

1 comentário:

Anónimo disse...

O pesadelo de ver a cara deste fulano vai continuar por mais uns tempos.