segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Por estes dias


Foram três semanas que passei bem longe daqui, o mais afastado possível de computadores e internet, durante as quais o acesso a notícias deste cantinho à beira mar plantado se restringiu a meia dúzia de telejornais, metade deles transmitidos pela incrível RTP internacional, cujo serviço noticioso tem um filtro que torna impossível percepcionar a tragédia que por cá se vive. Só visto, a RTPi é realmente inacreditável, e a todos os níveis, não apenas no que respeita a notícias dadas invariavelmente em tons primaveris. Há que dizê-lo, mil vezes o serviço da SIC internacional, sem que com isto esteja para aqui a fazer a tal apologia do privado. A RTP internacional nunca será melhor se quem a dirige não a quiser melhor. E quem a faz quere-a assim, uma amálgama de porcarias e parolices infantilizadas o mais possível, em que "o preço certo" do Fernando Mendes será de longe o melhor que por ali se vê.

Ainda ando para aqui aos papeis a tentar perceber o que aconteceu durante esta ausência, na qual era minha intenção não interromper completamente as postagens, o que acabei por não fazer, quer por falta de acesso à net, quer por falta de vontade. A inactividade soube-me bem. E parece que também não perdi grande coisa.

Houve mais uma greve de apenas um dia na Administração Pública, da qual, apesar da enorme adesão que teve, passadas duas semanas já ninguém se lembra. Na ausência de um fundo que cubra a perda de remuneração aos seus filiados, os sindicatos só podem queixar-se de si próprios pela ínfima capacidade que têm de influenciar o poder político. E todos nós desta espécie de sindicatos por nos deixarem assim, cada um por si, à mercê de um poder que desta vez caiu nas piores mãos.

Tivemos mais exemplos de como este poder político continua de mãos dadas com interesses privados, que se vão movendo numa órbita que não andará muito longe do universo dos financiamentos partidários de um centrão conhecido como "arco da governabilidade", para juntos produzirem os tais enriquecimentos acima das nossas possibilidades que continuaremos a pagar enquanto estas notícias não produzirem mais do que mera indignação instantânea. Destaco dois: os 17 milhões de uma dívida de Luís Filipe Vieira ao BPN  noticiados como tendo sido assumidos pelo lado mais magro de um Estado que se diz gordo quando promove o bem comum, e a excelente reportagem da TVI 24 sobre os milhões que o Governo continua a desviar, à margem da lei e cada vez mais milhões, para colégios privados dirigidos por gente das suas relações.

Finalmente, a conferência Em Defesa da Constituição que decorreu na Aula Magna e o espectáculo degradante da invasão das escadas do Parlamento por agentes de segurança que ali se manifestavam, dois fortes sinais  da bandalheira em que continua a transformar-se a nossa democracia. Da primeira retiram-se a vitalidade política de um jovem com quase 90 anos e o contraste com a falta dela de velhos muito mais jovens do que Mário Soares, a profundidade da intervenção de alguém que está tão longe de ser de esquerda como Pacheco Pereira , a estudada discretíssima presença de dirigentes no activo de um PS liderado por um eterno ausente, um  PS que por estes dias se absteve na votação de uma reforma do IRC que promove a concentração de riqueza, e o mosaico   de figuras de uma esquerda que apesar de tudo ainda resiste, desunida, sem estratégia, incapaz de mobilizar. Da segunda ressalta o exemplo que confirma o alerta deixado por Mário Soares quanto à possibilidade da violência dos protestos poder começar a atingir níveis inesperados: aqueles polícias podiam perfeitamente ter tomado pela força a Assembleia da República e feito disparates de consequências ainda mais imprevisíveis. Fica o aviso.

E termino  assinalando o aniversário deste blogue. Foi no Sábado passado, 23 de Novembro. O primeiro post foi há oito anos. O Burro está a ficar velho.

3 comentários:

fb disse...

Foram três semanas que passei bem longe daqui, o mais afastado possível de computadores e internet, durante as quais o acesso a notícias deste cantinho à beira mar plantado se restringiu a meia dúzia de telejornais, metade deles transmitidos pela incrível RTP internacional, cujo serviço noticioso tem um filtro que torna impossível percepcionar a tragédia que por cá se vive. Só visto, a RTPi é realmente inacreditável, e a todos os níveis, não apenas no que respeita a notícias dadas invariavelmente em tons primaveris. Há que dizê-lo, mil vezes o serviço da SIC internacional, sem que com isto esteja para aqui a fazer a tal apologia do privado. A RTP internacional nunca será melhor se quem a dirige não a quiser melhor. E quem a faz quere-a assim, uma amálgama de porcarias e parolices infantilizadas o mais possível, em que "o preço certo" do Fernando Mendes será de longe o melhor que por ali se vê.

Gi disse...

alguém que está tão longe de ser de esquerda como Pacheco Pereira
Parafraseando alguém que conheci em tempos, talvez o homem tenha saído da esquerda mas a esquerda não tenha saído do homem...

Anónimo disse...

Ainda bem que regressou pois gosto muito do que escreve.
Maria