sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Os camaradas assassinos


A 27 e 29 de Maio de 2012, Alves Kamulingue e Isaías Cassule foram raptados pelos serviços de segurança de Angola, no seguimento de uma manifestação de veteranos e desmobilizados do exército angolano. Estiveram desaparecidos por mais de um ano. Porém, apesar da tentativa de ocultação, transpirou para o conhecimento público no início do mês de Novembro um relatório oficial do Governo que dá conta de que ambos foram torturados e assassinados. Segundo o relatório, Alves Kamulingue foi objecto de “treinos”, expressão usada pelos agentes da Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC) para se referir a torturas, sendo posteriormente executado com um tiro na nuca. Quanto a Isaías Cassule, foi espancado durante dois dias, até à morte. O seu corpo seria atirado para o rio Dande, na província de Bengo.

Estas revelações macabras indignaram a sociedade angolana, que das mais diversas formas tem vindo a protestar contra a crescente repressão, a tortura e o asfixiamento das liberdades democráticas em Angola. No âmbito da preparação de uma manifestação de protesto contra o rapto e assassínio de Kamulingue e Cassule, oito militantes do partido CASA-CE (terceira força parlamentar angolana) foram detidos pela Unidade de Guarda Presidencial quando colavam cartazes. Segundo o testemunho de um dos detidos, diante das ameaças de morte pelos agentes policiais e enquanto eram transportados para destino desconhecido, Manuel Ganga tentou uma fuga. Nesse momento, foi baleado por duas vezes, vindo também a falecer.

Nós, portugueses, sabemos o que é uma ditadura. Tivemos uma que durou quase meio século. Sabemos o que é a repressão, as prisões por delitos de opinião, a tortura, as execuções sumárias, as arbitrariedades e toda a espécie de abusos de uma oligarquia que enriqueceu explorando todo um povo que condenaram à miséria, o medo. Lembramo-nos bem de como Salazar tremia quando a ferocidade e os abusos do seu regime mereciam a condenação de outros países e organizações internacionais. Recordamos bem como tais mensagens vindas do exterior davam alento a quem resistia, mostrando-lhes que não estavam sós. Entre os resistentes, tiveram fulcral importância os comunistas.

Recordo-os porque hoje o mesmo PCP que se orgulha do seu passado anti-fascista votou ao lado da esmagadora maioria que se recusou a condenar os assassinatos dos três cidadãos angolanos pela oligarquia, comprovadamente cleptómana e alegadamente marxista, de José Eduardo dos Santos e a exigência da libertação de todos os presos políticos do regime angolano, conforme proposto pelo Bloco de Esquerda.

Dos demais partidos, tão habituado que estou a vê-los invariavelmente disponíveis para venderem aos bocadinhos e a preço de saldos até a própria mãe Pátria sempre que do negócio lhes resulte algum proveito, não esperava nada. Ainda assim, houve um deputado do PSD que se envergonhou de participar na votação, 6 deputados do PS que votaram a favor e oito que se abstiveram. Mas esperava mais do PCP e dos Verdes, que votaram ao lado de toda a direita contra a proposta, num gesto que, financiamentos partidários à parte, sugere que os assassinatos são ou não condenáveis consoante os assassinos ostentem ou não uma foice e um martelo na lapela. Irei repensar tudo o que até hoje defendi relativamente a uma convergência à esquerda que inclua os comunistas. Um dos meus adágios populares preferidos diz “se queres ver o vilão, basta pores-lhe o pau na mão”. E já vi que me chegasse. Fazendo exactamente o que fez, Salazar seria hoje um santo se tivesse sido comunista.

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