sábado, 12 de outubro de 2013

Sobre a reconfiguração social que acontece diante dos nossos narizes




A recessão que Portugal atravessa é bastante diferente das anteriores. A actual está a proporcionar uma reconfiguração social de concentração de riqueza e de aniquilamento dos pequenos pelos grandes, com ganhadores e perdedores perfeitamente identificáveis, uma reconfiguração que não está a ser implementada apenas pelo Governo. Entre os grandes ou, se quiserem, entre os ganhadores, O sector financeiro está a ter um papel importantíssimo.

Durante esta semana, através de um relatório divulgado pela Associação Portuguesa de Bancos, voltámos a confrontar-nos com um dado que o comentário económico faz questão em não associar a qualquer fenómeno de reconfiguração social que está a transferir e a concentrar a riqueza diante dos nossos narizes: as taxas de juro cobradas pela banca às empresas portuguesas no final do semestre (5.53%) eram mais do dobro do que pagavam, em média, as restantes empresas da Zona Euro (2.59%). O relatório refere ainda que "o diferencial entre as taxas de juro de novos empréstimos a sociedades não financeiras em Portugal e na área do euro aumentou depois do início da crise da dívida soberana".

Outro estudo divulgado por estes dias, Catastrophic job destruction ("destruição de empregos catastrófica" em inglês  não soará tão mal), este do Banco de Portugal, identifica como uma das principais razões que explica a enorme destruição de empregos e a elevada taxa de desemprego a “severidade da restrição de crédito” por parte dos bancos. Os dados mostram que “as empresas que enfrentavam elevados custos financeiros saíram [do mercado] ou destruíram postos de trabalho a taxas mais elevadas do que aquelas que operavam com melhores condições financeiras”, principalmente em 2010 e 2011. “Verificou-se uma destruição de empregos sem precedentes”, dizem os autores, destacando que os encerramentos de empresas provocaram cerca de metade da perda de postos de trabalho em 2009.

Finalmente, ainda sobre reconfiguração social, foi também notícia durante a semana que hoje termina o anúncio da venda de uma empresa com interesse estratégico nacional e que dá lucro ao Estado, os CTT e a licença para a criação de um banco postal, com o Ministro da Economia a confessar que o negócio se fará mesmo sem a garantia da manutenção de todos os postos de trabalho. O Governo vai vender uma fonte de receita e com isso ainda vai fazer aumentar a despesa  com subsídios de desemprego. Para variar, óptimo negócio para o comprador e péssimo negócio para o vendedor: todos nós.

Resumindo: o Governo injectou largos milhares de milhões de euros no sector financeiro. Este limita a quantidade e aumenta o preço do pouco crédito que faz chegar a pequenas e médias empresas, guardando a liquidez para especular no mercado da dívida e para financiar privatizações. Pequenas e médias empresas fecham portas, deixam o mercado livre para as grandes empresas e lançam centenas de milhares de portugueses para o desemprego, incluindo ex-empresários, agora proletarizados. O Governo reduz subsídios de desemprego nos valores a receber e na duração dessa protecção, fazendo aumentar o desespero que obriga as pessoas a aceitarem trabalhar recebendo salários mais baixos (Portugal foi o país onde o salário médio mais se reduziu nos últimos dois anos). As privatizações a preço de saldo põem empresas lucrativas que se fizeram com o dinheiro dos contribuintes a enriquecer privados em vez de contribuírem para equilibrar as contas públicas. Os impostos aumentam para compensar esta perda de receita. Falta privatizar a Saúde e a Educação. "Reajustamentos". "Reformas estruturais necessárias". Um país nas mãos de uns poucos e a miséria instalada para os enriquecer ainda mais.
  
É um plano diabólico. Os ganhadores estão unidos e muito bem organizados. Os até agora perdedores têm que se organizar. E unir-se também. Senão, continuará a ser sempre a perder.

(editado)

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