quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Na ressaca orçamental


No dia seguinte à apresentação de um Orçamento com vários chumbos constitucionais dados como certos, embora não com esse propósito e sim para justificar a falta de carácter de um líder mitómano, o CDS pôs a circular um boato que vem novamente alertar para a ameaça constitucional que encerra um eventual entendimento entre o PSD e o PS para satisfazer novas exigências externas que, não duvidemos, a destruição provocada pela loucura subserviente e austeritária dos últimos anos legitimará mais cedo do que tarde. É hoje óbvio que o segundo resgate e todas as suas contrapartidas serão anunciados, aliás, reanunciados, quando menos o esperemos. E é pouco provável que um Governo fracassado e descredibilizado até nos pormenores mais irrelevantes sobreviva – desta vez não será um chumbo ou dois – à saraivada constitucional que se adivinha.

Estamos, pois, numa situação em tudo semelhante à que a Grécia viveu pouco antes do seu último período eleitoral, do qual resultou um Governo de coligação entre os dois partidos homólogos dos nossos PS (PASOK) e PSD (Nova Democracia). Mas sem Syriza. Um Syriza é um fenómeno impossível de acontecer com o PCP encapsulado numa ortodoxia que ainda fala em burguesia e proletariado e diz maravilhas de regimes como o angolano, com um Bloco de Esquerda apostado em implodir amarrado a delírios de inovação social como a sua liderança bicéfala e com uma sociedade civil desorganizada, avessa a rupturas e, ao contrário dos gregos, muito pouco dada a protestos. O protesto por cá resume-se quase exclusivamente a um abstencionismo que cresce função da punição que reclama para o rotativismo que acaba por eternizar.

Pior do que tudo, em Portugal não existe a percepção colectiva do perigo inerente a um eventual pacto constitucional entre PS e PSD, visto com bons olhos por grande parte da população, o qual, para acontecer, basta que o PS vista a sua roupagem de maioria absoluta, tão diferente da que traja quando está na oposição. E nas últimas autárquicas, recordemo-lo bem, o voto de protesto virou-se para o PS. Passámos dois anos a ouvir “Portugal não é a Grécia”. Consumada que está a nova cavalgada orçamental, agora temos tudo para sermos pior ainda. O juízo também não é recurso que abunde por aí. Isto assusta.

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