quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Mentira



 
Em resposta a Mário Soares, que na Terça-feira constatou que todos roubaram no BPN sem que ninguém tenha sido julgado, incluindo Cavaco Silva, o ex-accionista da SLN, ex-dona do BPN, veio hoje dizer que a única relação que teve com o BPN ou as suas empresas foi enquantodepositante para aplicação de poupanças quando era professor universitário. Mentira. Pior ainda, toda a gente sabe que é mentira. Uma mentira e um roubo, porventura o maior em tempo de democracia, que, como recordou e muito bem Mário Soares, continuam por julgar. 
Segundo o Expresso de 30 de Maio de 2009, Cavaco Silva obteve em 2003 mais-valias de 147.500 euros com a venda de acções da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), que tinha comprado em 2001. Por mera coincidência, a sua filha, que também era accionista, vendeu as acções na mesma altura, obtendo ganhos de 209.400 euros. Questionado sobre a notícia, Cavaco limitou-se a remeter o semanário para um comunicado que fez sair em Novembro do ano anterior, no qual rejeitava quaisquer ligações ao BPN, controlado pela SLN, por cuja administração passaram vários membros dos seus governos, um dos quais lhe vendeu as acções para meses mais tarde lhas comprar com prejuízo para o BPN. A soma destes prejuízos produziu o buraco gigantesco que todos os portugueses estamos agora a pagar.
A 13   de Abril de 2011, respondendo a perguntas dos juízes do julgamento no caso do Banco Português de Negócios (BPN), Paulo Jorge Silva, inspector fiscal que colaborou com a Polícia Judiciária no âmbito deste caso e que é testemunha do Ministério Público, disse “não ter explicação” para o facto de o principal arguido, José Oliveira Costa, ter perdido 1,10 euros em cada acção que vendeu a Aníbal Cavaco Silva e à filha do actual Presidente da República, Patrícia Cavaco Silva Montez.
E a explicação continua a ser mais do que óbvia. O chefe de qualquer quadrilha tem sempre direito ao seu quinhão sobre os proveitos da actividade do gang. Um gang que capturou a democracia. Um gang com poder de legislar a preceito para neutralizar a Justiça. Um gang que prega o sacrifício como redenção solidária de abusos que só eles cometeram. Um gang muito perigoso que condenou o seu povo à miséria. Um gang que não respeita - e ousa desobedecer - as decisões do Tribunal Constitucional. Um gang que tem que ser julgado para satisfazer o requisito mínimo de exigência de qualquer democracia que se respeite.
 
(Foto via Daniel Oliveira)

2 comentários:

Anónimo disse...

Eu só estou chateado é porque sendo eu também cliente não me propuseram um contrato daqueles... Não era preciso ser economista de Imglaterra para fazer tal negócio... É que se tratava de clientes especialíssimos, sabe?...

por joão marcelino, no DN disse...


1 Rui Machete, em 2009, em carta a um deputado, não se lembrava de ter detido ações da SLN, a sociedade que estava por detrás do BPN.

Oliveira Costa, ex-presidente desse banco, esta semana sentado no papel de testemunha de um julgamento a um familiar político (Duarte Lima), não se lembrava de ter despachado um empréstimo de 60 milhões de euros (sobre uma conta com 250 mil euros a descoberto!...) até ao momento em que foi confrontado com documentos por ele assinados.

Cavaco Silva, hoje Presidente da República, prefere (como ainda agora se viu a propósito das reações a umas palavras de Mário Soares) lembrar a sua relação de depositante com o banco. Que a sua antiga conta tivesse sido o canal de compra e venda, em 2003, de ações da SLN com as quais conseguiu uma mais-valia de 140% (147 500 euros) em pouco tempo terá sido apenas mérito do gestor de conta.

E se recuarmos um pouco mais no tempo também encontraremos um lapso do Dias Loureiro na Assembleia da República, quando o ex-conselheiro de Estado e ex-ministro da Administração Interna de Cavaco Silva disse não saber da existência da Excellence Assets Fund, que permitiu uma compra ruinosa de duas empresas tecnológicas em Porto Rico, da qual resultou um prejuízo de 38 milhões de dólares à SLN. O Expresso haveria de demonstrar que Dias Loureiro assinou dois contratos onde esse fundo é parte, mostrando fac-símiles dos documentos. Dias Loureiro negaria depois ter mentido aos deputados, queixando-se também da memória.

Ou seja, sempre que o assunto é o BPN ou a SLN, instala-se uma preocupante falta de memória nos protagonistas. Chega a parecer que aquilo é uma vergonha à qual ninguém gostaria de estar associado...

2 Quando Mário Soares fala neste escandaloso roubo, nesta mancha da democracia portuguesa, cujos eventuais culpados tardam em ser responsabilizados pela Justiça, está a dar voz a uma larga maioria de portugueses. Pode discordar-se de uma ou outra palavra de Mário Soares, sobretudo quanto sugere um julgamento de Cavaco Silva (que nenhum facto conhecido pode sustentar), mas é evidente que tem havido demasiado silêncio à volta deste escândalo - que alguns julgam ter sido convenientemente enterrado com o oportuno interesse do BIC, também ele ainda subsidiado com dinheiros públicos, como antes o fora a nacionalização.

Julgo descortinar na resposta de Cavaco Silva uma subtil alusão à idade de Mário Soares, que nem por ser mais polida do que a de Bruno de Carvalho a Pinto da Costa deixa de ser igualmente condenável. A idade não é em si mesma nenhum fator de menorização. Antes pelo contrário. A idade traz sabedoria, o que, associado ao desprendimento, à compreensão dos limites da vida, parece infelizmente ser essencial para produzir a dose de coragem necessária ao abordar de assuntos que a habitual cobardia da sociedade portuguesa gosta de proteger com o silêncio.

Congratulo-me por em Portugal ainda existirem pessoas como Mário Soares, que não precisam de preparar as palavras. Ele habituou-se a dizer o que pensa - e já não seria capaz, nem precisa, de se autocensurar.

Em Mário Soares acresce uma virtude: apesar da idade, e dos desafios delicados pessoais de saúde que teve de enfrentar nos últimos tempos, ele lembra-se.

Obrigado, dr. Mário Soares.

Aproveito para repetir, pela enésima vez: Cavaco Silva está há sete anos no cargo de Presidente da República e nunca teve uma palavra de censura sobre o roubo do BPN.