domingo, 13 de outubro de 2013

Gostei de ler: "O empreendedorismo: a doença infantil do capitalismo"




«Não há jornal ou revista que nos últimos três anos não tenha apresentado uma ou mais reportagens sobre “empreendedores” de sucesso vário. Normalmente a reportagem apresenta X portugueses que triunfaram na sua área / abriram um pequeno negócio de sucesso / tiveram uma ideia genial / regressaram da emigração (riscar o que não interessa). São normalmente caras simpáticas e jovens, umas mais abetalhadas outras mais sóbrias, sempre com alguma designer mais moderna pelo meio. A omnipresença e assiduidade deste tipo de artigo é justificada pela intenção de mostrar a viabilidade criativa e renovadora do que por “cá” se vai fazendo, ou seja, que o remédio para a macambúzia e cinzenta falta de produtividade nacional é o génio da juventude empenhada em explorar novas formas de valorização capitalista, uma merdinha às cores de cada vez. Num pais onde o grande trunfo da exportação é uma linha de papel higiénico colorido as ideias dos jovens seguem mais ou menos a mesma ordem conceptual: “empreender” significa essencialmente pegar num pequeno negócio banal, dar-lhe um nome giro em inglês e comprar a mobília da loja no IKEA. O jovem “empreendedor” acha que por a sua empresa de aluguer de bicicletas a turistas se chamar “lx bike tour experience” ou que por propor uma marca de café com leite sob o nome “gallonize your life” irá reinventar a roda. A difusão desta ideia é essencialmente propagandística ao sugerir uma reorganização do trabalho em modelos cada vez mais isolados, autónomos e desprotegidos enquanto última tábua de salvação no naufrágio que é a crise. Uma mínima percentagem destes novos empresários irá triunfar constituindo mini-núcleos de exploração brutal e todos os outros irão terminar enquanto reforço da mão-de-obra barata ou, na melhor das hipóteses, organizando-se dentro de um aparato ideológico de assistência ao “empreendedorismo”. O “empreendedorismo” não é a renovação do tecido empresarial do país, a excelência criativo-técnica da sociedade ou o sentido de aventura dos jovens, mas sim a crise, a austeridade e a precariedade pintadas de amarelo e azul com o lettering em helvetica neu. A capacidade inovadora do capitalismo deveu-se à sua inédita capacidade de mobilização gigantesca de recursos e de trabalho, ou seja, precisamente o contrário destes microscópicos centros de valorização banal que procuram emular o consumo de rua dos grandes centros cosmopolitas, esquecendo no entanto que, em Portugal, não há uma circulação de capital e de agentes económicos que permita sustentar esse nível de consumo quotidiano. Os heróis que o capitalismo tardio produziu não deveriam servir de inspiração mas sim de aviso, sendo a sua emulação semelhante à de qualquer outra estrela: qualquer tótó a mostrar o seu projecto empreendedor na televisão se sente o próximo Steve Jobs, mas na verdade está tão próximo dele como qualquer concorrente de fundo de concurso de talentos televisivo está da Beyoncé.

Fosse o “empreendedorismo” apenas a brincadeira trágica da burguesia jovem nos últimos dias do capitalismo ou apenas mais um dos indicadores da perversidade e da miséria dos tempos em que vivemos e ficaríamos por aqui. A questão mais vasta e preocupante, impregnada pelos processos acima descritos, é a da redução da capacidade de pensamento e de problematização do existente, da política enfim, ao campo da “ideia gira” e de uma profundamente banal e medíocre ideologia da participação vácua que se justifica a si própria. De certo modo o “activismo” espelha totalmente o “empreendedorismo”, revendo-se várias vezes até no conceito macabro de “empreendedorismo social”, ou seja, num elogio da acção nua desprovida de contexto e problemática. A multiplicação de acções apenas simbólicas, de momentos em que se pede a “todos os portugueses que escrevam em folhas de papel as suas ideias para mudarem o país” e de reportórios de contestação apenas emotivos e estéticos obedece totalmente a um espírito do tempo que apenas preza o que imediatamente se dissipar numa espuma dos dias que, obviamente, de suave e ligeira tem muito pouco.

Não é nada inocente que no momento em que o governo em exercício leva a cabo uma utilização totalitária das instituições do estado no sentido de reorganizar produtivamente a sociedade surja precisamente esta ideia do trabalho e do capitalismo enquanto uma tarde bem passada a fazer cupcakes com as amigas para vender a outras entidades cosmopolitas em passeio pela baixa. Porque a realidade é obviamente outra, e é intolerável.

PS: Na altura de postar procurei no google images “empreendedor”. O resultado é profundamente sinistro, cínico e esclarecedor.  O momento empreendedor de orgasmo divino no escritório é todo um novo programa de alegria no trabalho.» (ver todas as imagens) 

Luhuna Carvalho, no 5 dias.

1 comentário:

Pedro Diniz disse...

"Num pais onde o grande trunfo da exportação é uma linha de papel higiénico colorido as ideias dos jovens seguem mais ou menos a mesma ordem conceptual: “empreender” significa essencialmente pegar num pequeno negócio banal, dar-lhe um nome giro em inglês e comprar a mobília da loja no IKEA. O jovem “empreendedor” acha que por a sua empresa de aluguer de bicicletas a turistas se chamar “lx bike tour experience” ou que por propor uma marca de café com leite sob o nome “gallonize your life” irá reinventar a roda."

Completamente de acordo. Até parece telepatia...