quarta-feira, 2 de outubro de 2013

E "ajustamento" é...


Entre Junho de 2011, data da chegada da troika a Portugal, e 2017, final do período de recapitalização da banca, terão deixado o sector bancário nacional mais de oito mil trabalhadores, ou seja, quase 20% do total inicial. Significa isto que os contribuintes portugueses injectaram quase 10 mil milhões de euros num sector financeiro que já antes de 2008 beneficiava de um regime fiscal em sede de IRC mais favorável do que uma mercearia de bairro e os poderes públicos, que também nada fizeram para garantir que o crédito continuasse a chegar à economia, não exigiram como contrapartida sequer a manutenção de postos de trabalho. O caso do BCP é emblemático na explicação que dá sobre o significado da palavra "ajustamento": em apenas dois anos, entre Junho de 2011 e Junho de 2013, o BCP já dispensou 1500 trabalhadores e encontra-se actualmente em negociação com os sindicatos para avançar com um plano de cortes salariais. E nem ouvir falar da auditoria que se impõe às contas de um banco cujos ex-administradores se encontram actualmente a contas com a Justiça por toda a espécie de vigarices  e em cujo passivo as dívidas de apenas seis grandes devedores pesam mais do que os 3 mil milhões de dinheiros públicos que nele foram injectados. "Ajustamento" é despedir e cortar salários para compensar um imenso cardápio servido pela delinquência financeira. Chegará o dia em que não haverá mais ninguém para despedir nem salários que possam ser cortados. E então venha a nacionalização. Do acumulado de prejuízos, evidentemente, porque os activos já estarão numa qualquer ilha com palmeiras, muito longe daqui. O "ajustamento" é uma fuga para a frente. A crise está muito longe do fim.


Vagamente relacionado: Pedro Passos Coelho voltou nesta terça-feira a pressionar o Tribunal Constitucional. Na intervenção inicial que fez no Conselho Nacional do PSD, o primeiro-ministro apelou à colaboração de todos os órgãos de soberania para permitir que Portugal conclua o programa de assistência financeira.

Ainda mais vagamente: A PT, empresa com sede fiscal na Holanda, anunciou nesta quarta-feira que assinou um acordo de intenções com a Oi que define princípios essenciais para uma proposta de fusão entre a PT, a Oi e as holdings da Oi, dando origem a uma empresa denominada CorpCo. Zeinal Bava será o presidente executivo (CEO) da nova empresa. Na sequência do anúncio, as acções da PT dispararam em bolsa. Perto das 9h, os títulos da operadora de telecomunicações estavam a liderar as valorizações do índice de referência PSI 20, em alta de 15,47% para 3,92 euros. A Comissão de Trabalhadores da PT mostra-se preocupada com uma eventual redução de postos de trabalho, alertando que a fusão com a Oi conduzirá a esse cenário a médio prazo.

1 comentário:

fb disse...

Entre Junho de 2011, data da chegada da troika a Portugal, e 2017, final do período de recapitalização da banca, terão deixado o sector bancário nacional mais de oito mil trabalhadores, isto é, quase 20% do total inicial. Significa isto que os contribuintes portugueses injectaram quase 10 mil milhões de euros num sector financeiro que já antes de 2008 beneficiava de um regime fiscal em sede de IRC mais favorável do que uma mercearia de bairro e os poderes públicos não exigiram como contrapartida sequer a manutenção de postos de trabalho. O caso do BCP é emblemático na explicação que dá sobre o significado da palavra "ajustamento": em apenas dois anos, entre Junho de 2011 e Junho de 2013, o BCP já dispensou 1500 trabalhadores e encontra-se actualmente em negociação com os sindicatos para avançar com um plano de cortes salariais. E nem ouvir falar da auditoria que se impõe às contas de um banco cujos ex-administradores se encontram actualmente a contas com a Justiça por toda a espécie de vigarices e em cujo passivo as dívidas de apenas seis grandes devedores pesam mais do que os 3 mil milhões de dinheiros públicos que nele foram injectados. "Ajustamento" é despedir e cortar salários para compensar um imenso cardápio servido pela delinquência financeira. Chegará o dia em que não haverá mais ninguém para despedir nem salários que possam ser cortados. E então venha a nacionalização. Do acumulado de prejuízos, evidentemente.