quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Debater o futuro, reescrever o passado


Não será todos os dias que um licenciado ao Domingo escreve um livro. Aliás, licenciados ao Domingo não há assim tantos, facto que levanta questões sobre a relevância estatística da amostra. O certo é que, escrevendo apenas um livro, quer dizer, dando forma de livro a uma tese de mestrado, o ex-líder partidário e agora Mestre José Sócrates conseguiu uma projecção mediática que, apesar de todo o reconhecimento científico internacional que granjeia, o ex-líder partidário Francisco Louçã não conseguiu escrevendo dez livros já depois do doutoramento.

E o lançamento do tal livro do século foi ontem, numa cerimónia presenciada por uma amostra significativa do que foi e do que querem volte a ser o homenageado da noite. Lula da Silva, actualmente investigado por corrupção no Brasil e pai de uma daquelas fortunas que se fazem do dia para a noite (e que inclui a OI, a da tal transacção com a PT que Sócrates isentou de qualquer imposto), deu o mote: “Debater o futuro é debater a democracia, o futuro da esquerda europeia”. Falou da especulação financeira, proclamou “o orgulho de dizer que somos socialistas” e sentenciou: “As crises são dádivas de Deus para que a gente faça a reflexão”. Por que não? A esquerda a que Lula se referia acorreu em grande número à cerimónia.

Comecemos pelo outro convidado de honra, Mário Soares. Esteve em foco nos últimos dias por ter quebrado um silêncio de cinco anos sobre o banco cujo passivo, e apenas o passivo, o Governo dirigido pelo homenageado nacionalizou em 2008. Mário Soares é o homem que devolveu o património à oligarquia que enriqueceu durante a ditadura à sombra do condicionamento que durante 48 anos lhe garantiu o monopólio da exploração de uma mão-de-obra espezinhada por salários e condições de trabalho de miséria, violentamente reprimida quando ousava reivindicar nem que fosse a dignidade mais ínfima. É o homem que evitou que os crimes da ditadura fossem julgados ao ponto de nem sequer terem sido contabilizados os mortos nas prisões para delitos de opinião. É o homem que na campanha eleitoral das legislativas do memorando que o centrão a que pertence o seu PS assinou de cruz disse aos portugueses para não terem medo do FMI. É o homem que não abriu a boca para condenar a homenagem que as estruturas do PS que enriquecem com um regabofe imobiliário em Braga promoveram a um assassino fascista em Agosto passado.

Entre os demais presentes pertencentes a este orgulho de ser socialista merecem destaque Jorge Coelho, o homem  das PPP da Mota-Engil, Noronha do Nascimento e Pinto Monteiro, dois símbolos dessa auto-estrada que ficou por fazer entre o Freeport de Alcochete e a prisão da Carregueira, Proença de Carvalho, nome sonante dessa praça do parecer que anualmente sorve milhões ao erário público, António Carrapatoso, o empreendedor do Compromisso Portugal que, entre outras proezas,  obteve um prémio de 740 mil euros pela invisibilidade que conseguiu para si aos olhos da máquina fiscal e Pedro Silva Pereira e Maria de Lurdes Rodrigues, nomes grandes dessa cruzada contra os “poderosos interesses corporativos” que o socratismo iniciou contra funcionários públicos e professores, por si eleitoscomo os preferidos para pagar todos os festivais socráticos, pré-socráticos e pós-socráticos. Haveria mais nomes, mas a série já vai longa.

E não. Não nutro qualquer ódio primário a Sócrates. Também não pertenço ao grupo de patetas que lhe atribuem o exclusivo das responsabilidades pela situação a que o país chegou. Mas também não tenho por ele qualquer simpatia. Irrita-me que o digam um homem de esquerda depois do código laboral que aprovou, do desmantelamento das carreiras da Administração Pública e de serviços públicos que promoveu, dos negócios escuros e relações opacas que estabeleceu com os grandes interesses económicos, da austeridade que iniciou, apenas mais branda do que a actual por ter acontecido primeiro, da subserviência à Europa do Tratado de Lisboa que ratificou à revelia de uma consulta popular. Não sou daqueles que se contentam em pertencer a esta esquerda que está tão à direita do centro e que nunca sairá daí enquanto se cultivar como se cultiva a falta de memória, enquanto o não ser tão mau continuar a ser confundido com ser melhor, enquanto continuarmos a homenagear os homens do problema e a ostracizar os homens da solução. Sócrates foi um dos nossos homens do problema. Foi apenas um, Mas foi. Debater o futuro não é o mesmo que reescrever o passado. Passamos  a vida a reabilitar os nossos vilões de estimação. E depois queixamo-nos que estamos sempre a tropeçar nas mesmas pedras.


PS. Sobre a obra literária do século, vale a pena ler este “Sócrates: um vira-casacas ou um convertido sincero à causa dos Direitos Humanos?” do Ricardo Alves.

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