segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Seria Merkel, foi Merkel




CDU 41,5%, FDP 4,8% e fora do parlamento, SPD 25,7%, Die Linke conseguiu 8,6% e os Verdes 8,4%. Seria sempre uma vitória de Merkel, foi uma grande vitória de Merkel. Dificilmente obteria uma maioria absoluta, quase obteve uma maioria absoluta. A curiosidade agora está em saber qual das imitações do original será convidado para integrar a coligação governamental. Aliás, esta foi a única incógnita das eleições alemãs, com três partidos a disputarem o lugar de muleta da CDU e o eleitorado alemão a penalizá-los por não saberem para fazer melhor e diferente. Os alemães estão bem, a Europa do Sul aplaude. A Alemanha esmaga e vai a votos a apontar a preguiça do Sul, o Sul revela preguiça para fazer melhor do que fazer de conta que somos todos europeus. O mundo sempre foi tal e qual o fizemos.

1 comentário:

de daniel oliveira disse...

Schroeder (SPD) teve mais responsabilidades na nova estratégia alemã para a Europa e para o Estado Social do que Merkel (CDU). Tal como acontece por toda a Europa, o centro-esquerda alemão é incapaz de construir um discurso alternativo. E isso explica porque teve o SPD um dos piores resultados da sua história. Se joga no tabuleiro da CDU, será a CDU que ganha. Também no que toca à política europeia, tão pouco presente na campanha eleitoral alemã, SPD e CDU têm muito poucas diferenças. É até no interior da CDU que temos ouvido velhas vozes mais lúcidas de oposição à política europeia da chanceler.

O nosso problema não é Merkel. Não é sequer a Alemanha. É a dinâmica de repartição de poder económico e político que o euro e os tratados europeus alimentaram. Uma dinâmica de divergência económica e de subalternização das periferias que torna qualquer ideia de solidariedade europeia numa absurda ingenuidade.

É bom convermo-nos de uma vez por todas que não dependemos da boa vontade dos outros. Os países em crise dependem apenas da sua coragem. Coragem suficiente para confrontar, enquanto o podem fazer, os países economicamente mais robustos com o beco sem saída em que a Europa se está a enfiar. E usarem as duas únicas armas que têm: serem devedores e fazerem parte de um euro que, ao mínimo sopro ou ameaça de deserção, se pode desmoronar. Não se trata de chantagem. Trata-se de um direito: o de não ser obrigado a viver com regras que os vão asfixiar e que apenas favorecem as economias mais fortes.

Se os portugueses, os gregos, os espanhóis e os irlandeses não querem correr o risco de provocar rupturas europeias de que urgentemente precisam quando tudo lhes corre mal, como podem esperar que os alemães o façam quando se vão safando? Se até grande parte dos portugueses acredita que viveu acima das suas possibilidades, como hão de os alemães acreditar que o problema é outro, mais grave e que envolve toda a Europa e a sua moeda disfuncional?

Não vale a pena esperar que Hollande exista. Esperar que os italianos se afundem e obriguem a Europa a acordar. Não vale a pena, como todos sabemos, esperar que Durão Barroso nos explique porque era a sua ida para a Comissão Europeia tão importante para Portugal. Não vale a pena esperar que os mercados nos achem credíveis porque somos disciplinados. Não vale a pena esperar por um prémio de bom comportamento, quando esta crise não é um castigo por mau comportamento.

Não vale a pena esperar. Se a única posição que podemos realmente influenciar (a do nosso governo) continuar a ser obediente e temerosa, morreremos em silêncio. Se continuarmos a deixar que o governo venda Portugal fora de portas como um exemplo de sucesso das políticas de ajustamento, como podemos esperar que os outros percebam que por aqui se está a destruir um País? Não será seguramente o eleitor alemão, legitimamente preocupado com os seus salários, no seu emprego e na sua economia, a pensar numa crise distante que ele nem percebe bem até que ponto é dramática. Uma crise que lhe dizem que está a ser resolvida com o seu dinheiro. Se até nós, que somos as principais vítimas desta crise, acreditamos que andamos a viver com o dinheiro dos outros, como podemos esperar que os alemães percebam o que se passa aqui? Se nós, que estamos como estamos, elegemos Passos Coelho, porque raio havia o eleitor alemão, que está bem melhor, de não eleger Merkel?