segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O direito a ser cromo


« Segundo o regulamento do Agrupamento de Escolas de Valadares, aprovado em Janeiro de 2013, “o aluno tem de se apresentar na escola "asseado, sem exibir roupa interior, decotes excessivos, calças excessivamente descidas ou saias demasiado curtas». Foi uma autêntica surpresa verificar a histeria que uma notícia destas provocou nas redes sociais durante o fim-de-semana. Não fazia ideia que havia para aí tantos activistas do direito a andar sujo e com a roupa interior à mostra. Pelos comentários que fui lendo, da proibição de decotes até ao joelho e de minissaias pelo umbigo até à implantação de uma ditadura que torne o uso da burca obrigatório vai um pequeno passo. Existe uma esquerda que insiste em deitar para o lixo o bom trabalho que desenvolve na resistência à ofensivaneoliberal que nos vai ceifando o presente e hipotecando o futuro expondo-se ao ridículo nas reacções exageradas a notícias que beliscam, ao de leve que seja, os seus clichés mais primários. E a notícia não tinha nada de extraordinário: um agrupamento de escolas, decerto que em resposta a práticas que prejudicam o normal funcionamento das actividades lectivas e esgotados todos os avisos verbais, decidiu tornar público um regulamento que acomoda nas cabecinhas dos seus alunos que sair à noite, ir à praia e ir trabalhar tem diferenças também no trajar. Que alunos adolescentes não percebam uma coisa tão simples como esta, ainda se entende. Que adultos não o tenham percebido ainda e que, reclamando-se de esquerda,defendam uma escola que não modifica as percepções que os seus alunos trazem de casa, e no caso é não trazem,  é que se estranha. E que depois queiram ser levados a sério, estranha-se ainda mais, embora estejam no seu direito. Ser cromo ainda não é proibido.

Vagamente relacionado, embora incomparavelmente menos importante: O secretário de Estado João Casanova de Almeida afirmou, em declarações à RTP, que “as escolas que vão abrir são a grande maioria. As restantes são casos pontuais que estão a ser trabalhados”. Porém, hoje há várias notícias de protestos, não só em Lisboa, em Monchique e no Marco de Canaveses, como no Porto, Golegã, Loulé e Coimbra.

 

2 comentários:

Gi disse...

Mais uma vez, concordo consigo, Filipe.
Também não se perdia nada se os/as alunos/as, em vez de competirem pelas roupas e sapatilhas, usassem uniformes na escola.

Filipe Tourais disse...

Uniformes não me agradam, acho que não é preciso chegar aí. No meio termo estaria bem. É nesse meio termo que vivemos a maior parte das nossas vidas.