quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O centrão e a brandura da violência


Os malefícios da austeridade e os benefícios de uma austeridade light. A ideia, que tem sido defendida internamente pelo PS, é uma das principais teses defendidas num relatório ontem tornado público pelo FMI. Qual a carga de austeridade que deve ser imposta num país que tenha como objectivo a consolidação das suas contas públicas? Em linha com outros estudos que já vinham publicando nos últimos meses, os técnicos do FMI arrasam a ideia – até aqui central nas políticas do Fundo em programas de países como Portugal – de que pode haver "consolidações orçamentais expansionistas", ou seja, que, ao corrigir défices excessivos, um Governo poderia estar a ajudar a economia, já que aumentaria a confiança dos agentes económicos. Os técnicos do FMI dizem agora que "os mais famosos episódios de contracções expansionistas na Europa nos anos 80 e 90 foram criados mais pela procura externa do que interna" e que "não parece que efeitos de confiança tenham desempenhado um papel importante nesta crise". Por outras palavras, aquela conversa da confiança era treta. Andaram a destruir vidas, a desmantelar serviços públicos e a arrasar sociedades inteiras em nome de uma treta. Uma treta que enriqueceu uma minoria à custa do empobrecimento, tantas vezes desesperado, da restante maioria, é bom não esquecer o móbil do crime. Por essa exacta razão, uma treta a prolongar o mais possível.

Sétima e oitava avaliação da troika, campanha das autárquicas, oportunidade para António José Seguro brilhar. O secretário-geral do PS disse ontem num comício em Aveiro que na reunião que terá hoje com os responsáveis da troika irá defender que a meta do défice em 2014 fique pelo menos nos 5%, em vez dos 4,5 pretendidos pelo Governo e dos 4 defendidos pela troika. Aqui está ela, a austeridade light, e light apenas na brandura das palavras escolhidas. Certas declarações valem pelas abordagens que evitam. Repare-se que nestes 4, 4,5 ou 5%, tanto faz, estão os juros usurários que pagamos à troika, a fortuna que pagamos em PPP, os milhares de milhões que pagamos em SWAP e o balúrdio que pagamos em rendas garantidas a sectores como o da energia. Seguro fala na intensidade da austeridade e, tal como o Governo, evita a questão da sua composição

Qual é afinal o valor do nosso défice orçamental sem contar com estas parcelas é abordagem raramente vista na nossa comunicação social e pouco e mal trabalhada pela restante oposição. Daí o àvontade com que António José Seguro, também o Governo, podem atirar para o ar a ideia de uma austeridade cheia de virtudes por ser mais branda sem que se lhes note a relutância em fazerem o que deviam e não querem fazer. E note-se que PS, PSD e CDS estão em todas: nos juros usurários que não negociaram com a troika quando assinaram de cruz o memorando sem sequer saberem qual a taxa que nos poriam a pagar, que continuam a não querer negociar, nas PPP que uns e os outros foram assumindo a juros que em muitos casos ultrapassam os 14% ao ano, contratos leoninos que o Governo não anulou e que o PS evita exigir que sejam anulados, o festival SWAP do tempo de Sócrates que a mentira e a irresponsabilidade da era Passos Coelho fez chegar ao presente e todas as rendas garantidas às clientelas partilhadas por todos os partidos deste centrão de interesses, das quais nunca os ouvimos falar. Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e António José Seguro transmitem a ideia da necessidade de tornar a austeridade mais branda. Mantendo todos estes roubos, a austeridade será sempre violenta. Como qualquer roubo com estas dimensões.

Vagamente relacionado: A agência de notação financeira internacional Standard & Poor's anunciou esta quarta-feira que o rating atribuído a Portugal está agora sob "vigilância devido à ameaça de um segundo resgate, o que significa, de acordo com as definições da instituição, que existem agora 50% de hipóteses de um corte ser concretizado durante os próximos meses. Está tudo a correr bem. Para que haja mais cortes. A chantagem do costume.

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