sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Não se pode governar bem quando se governa assim


"Não se pode ensinar bem o que não se sabe bem". Quem o diz é um Ministro apostado em destruir a escola pública e sem credibilidade sequer para defender que o céu é azul sem levantar fundadas suspeitas, mas não posso deixar de concordar com a ideia contida nesta constatação irrefutável. Muitas vezes eu próprio me coloquei essa mesma questão, a última das quais aconteceu quando uma professora de português teimou comigo que a forma correcta de dizer "hás-de" é "hades". Porém, a frase não foi dita ingenuamente. Nuno Crato quer avaliar os conhecimentos dos candidatos a novos professores, ideia com a qual simpatizo de forma genérica, até porque isto é o que se faz nos concursos de ingresso à carreira de técnico superior em toda a Administração Pública.

As minhas dúvidas começam precisamente aqui: para que a minha professora do "hades" conseguisse entrar para a carreira com 20 valores, bastaria que a prova de conhecimentos a incluir no concurso de ingresso não contivesse qualquer questão que envolvesse a conjugação do verbo haver. Tenho a certeza que não será um Ministro que está a fazer do enriquecimento de uns amigos proprietários de colégios privados função da destruição da escola pública que terá capacidade - e ainda menos interesse - para implementar um sistema que garanta que o nosso sistema de ensino recrute os melhores candidatos. Os próprios professores dos colégios privados, exemplos de virtude  para onde anda a desviar o dinheiro que deveria servir para financiar as escolas da rede pública, são recrutados através de critérios que não se comparam, pela exigência, pela objectividade ou pelo critério que seja, àqueles que hoje vigoram  nos concursos de recrutamento dos seus colegas do público.
Porém, que alguma coisa terá que ser feita e que, porque também é sobre a dignificação da sua profissão que estamos aqui a falar,  deveriam ser os próprios professores a exigi-lo, parece-me óbvio. Com outro Governo, com outro ministro e com muito cuidado. Não se pode governar bem quando se prostitui o interesse público a interesses privados. Não se pode governar bem quando a única coisa que têm capacidade para fazer é cortar. Quem governa assim não deve sequer ser levado a sério.

 
Vagamente relacionado: Uma professora descontente com o estado da educação em Portugal interrompeu nesta sexta-feira o discurso do ministro Nuno Crato, durante a tomada de posse do presidente do Instituto Politécnico de Viseu (IPV), e perguntou-lhe se tem consciência do que está a fazer à Educação. (aqui)

Ainda mais vagamente: no mês de Agosto, 17.862 professores do ensino secundário, superior ou que desempenhavam funções similares inscreveram-se num centro de emprego do país, segundo o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), o que corresponde a um aumento de 26,4% relativamente a Agosto de 2012 e de 21,4% relativamente a Julho. Em termos relativos, os docentes foram os segundos a sofrer mais com o desemprego, logo a seguir ao pessoal dos “quadros superiores da administração pública”, com um aumento de 44,1% em termos homólogos e 13,5% face a Julho.

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