terça-feira, 3 de setembro de 2013

Mais uma mentira, mais uma fortuna


Todos se recordarão que os SWAP transferidos para a Parpública geraram polémica pelo facto de a ministra das Finanças ter inicialmente reiterado, por diversas vezes, que o actual Governo não tinha subscrito swaps, responsabilizando o anterior executivo PS pela bomba-relógio criada nas empresas públicas. Era mentira. Numa audição no Parlamento no final de Junho, Maria Luís Albuquerque acabou por reconhecer a existência desta operação, que permitiu à Parpública ter acesso a financiamento com condições mais vantajosas do que conseguiria obter se tivesse de ir ao mercado, referindo-se sempre à existência de um único derivado. "Sejamos absolutamente claros: autorizei a transição de um financiamento para a Parpública que tinha associado um contrato de swap. Sim, é verdade", disse na Assembleia da República. E lá mentiu outra vês.

Segundo o relatório financeiro que a Parpública divulgou na sexta-feira com as contas do primeiro semestre, a Ministra das Finanças autorizou em Janeiro de 2013 a transferência de financiamento que pertencia ao consórcio privado que ia construir o TGV para a holding do Estado, então presidida por Joaquim Pais Jorge. O pacote financeiro incluía quatro swaps, e não apenas um, como disse a Ministra, quatro SWAPS que em Junho já acumulavam perdas potenciais de 122 milhões de euros, simultaneamente a medida da mentira quanto às condições de financiamento mais vantajosas relativamente àquelas que a Parpública obteria no mercado e também a medida do favor feito ao consórcio Elos, que ia construir o TGV.

É para pagar favores destes que queriam despedir 30 mil funcionários públicos à margem da lei fundamental. É para sustentar isto que querem pôr os funcionários públicos a trabalhar gratuitamente uma hora todos os dias à margem da lei. É para isto que querem cortar pensões de reforma, é para isto que cortam protecções sociais no desemprego e rendimento social de inserção, é para aqui que vai o dinheiro dos impostos que aumentaram e que deixaram de ser canalizados para a qualidade dos nossos serviços públicos. Tudo isto já justificaria a demissão imediata desta quadrilha feita Governo. Mas também puseram a economia em pantanas, também são responsáveis pelos recordes sucessivos do desemprego, também são responsáveis por uma dívida que pelas suas mãos passou de 100,1 para mais de 130% do PIB. Obviamente, demitam-se.

Vagamente relacionado: Dos 52,1 milhões de euros pagos pela Carris aos bancos em contratos swaps nos últimos seis anos, a maior fatia foi parar ao bolso do BES Investimento e do BPN. Mas ao contrário do Santander, os swaps destes bancos ficaram de fora do lote considerado "tóxico". O buraco dos swaps na Carris dava para pagar bilhetes e passes a todos os passageiros durante um ano e meio, incluindo o subsídio público para as bonificações das tarifas de crianças e idosos. (ler mais)

1 comentário:

Anónimo disse...

De Amadeu Homem:

"O BOM POVO PORTUGUÊS"

"Fiquei esclarecido sobre o que são hoje, ética e civicamente, alargados sectores da sociedade portuguesa, quando ouvi numerosas reportagens sobre a tentativa governamental de impor o horário das 40 horas aos funcionários públicos. Muitos dos que foram ouvidos manifestaram com crueza, em nome do "sentido de Justiça", tudo o que de mais primitivo lhes latejava no íntimo: a inveja, a emulação gratuita, o puro e simples desejo de causar incomodidades e embaraços ao próximo. Era como se estivessem a verbalizar o seguinte: "Sinto-me mal. Estou mal. O meu desajustamento com a realidade é um facto. Portanto, quero que venhas a ser como eu". Tudo isto vinha embrulhado no papel de seda da hipocrisia, alegando-se que os funcionários públicos eram malandros e madraços, estavam cumulados de regalias, ganhavam extremamente bem, etc, etc. E não ouvi uma só palavra sobre as escandalosas protecções concedidas aos "boys", sobre as fortunas pagas com os impostos de todos nós a administradores de topo das Empresas Públicas, sobre a acumulação de reformas em certas figuras exponenciais, sobre o mar de privilégios com que se alinhava a "classe política", sobre o reduzido tempo da mesma para a obtenção das mesmas reformas, sobre os "subsídios de reintegração", sobre esse mar sem fim de douradas e ilegítimas condições de vida. Para certa gentinha, o que é necessário é que o vizinho, o conhecido, o IGUAL seja sobretudo IGUAL na dificuldade e no desgosto de viver. Como sempre, o Zé Pagode português olha reverente, silencioso e quase concordante todo o marmanjo que considera fazendo parte da estrutura do Mando.
Este Povo está talhado para o açaimo e para a albarda. E vai-se escoucinhando metodicamente e mutuamente, enquanto lhe colocam os aprestos infamantes da sujeição."