quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Eles são tão diferentes, pá!


Numa acção de campanha em Fafe, ontem, o secretário-geral do PS lembrou-se de acusar o primeiro-ministro de revelar "enorme insensibilidade" e de estar "obcecado" pelos mercados ao criticar os socialistas por defenderem junto da troika um défice nunca inferior a cinco por cento em 2014. Pedro Passos Coelho, recordemo-lo, aceita os 4% acordados com a troika. A meio caminho entre os dois, naquele meio onde costuma estar a virtude, Paulo Portas defende 4,5%. Voltamos a constatar que nenhum dos três fala em renegociar os juros com a troika ou em anular os contratos das PPP. E aí, sim, na parte do défice que apenas pesa, nessas parcelas da nossa despesa que não provocariam sofrimento às pessoas nem teriam quaisquer efeitos recessivos caso fossem reduzidas é que deveriam cortar. É sagrada para os três.

Mas recuemos até Julho passado, às famosas negociações que decorreram logo a seguir à demissão de Vítor Gaspar e à demissão irrevogável de Portas, ao tal consenso que Cavaco Silva encomendou aos três meninos antes de se pirar para as Cagarras. Hoje podemos concluir que as "enormes diferenças" que inviabilizaram o acordo eram , afinal, de 0,5% entre António José Seguro e Paulo Portas e de 1% entre o primeiro e Pedro Passos Coelho. Quando falavam em "enormes diferenças", estavam a falar de 800 e de 1600 milhões de euros. A diferença entre ter ou não ter sensibilidade social e entre estar ou não estar obcecado com os mercados para esta malta é isto. Não passa por auditar nem por renegociar a dívida. Daí a necessidade que estes três brincalhões têm de irem produzindo estes números de circo. Pedro Passos Coelho acusou António José Seguro de "falta de rigor". Eles são mesmo diferentes, pá!

  • Vagamente relacionado: o desentendimento entre os  partidos do Governo, o PS  e a troika de credores internacionais sobre o valor do défice orçamental de 2014 poderá vir a ser ultrapassado graças à instituição, ao nível europeu, de um novo método de cálculo do esforço de ajustamento dos países do euro que leva em conta o conceito de “défice estrutural”, um conceito que terá que ser objectivado, uma vez que não vem nos livros. Invenções para manter uma austeridade que enriquece empobrecendo e para não se fazer o que deve ser feito, tal como renegociar as dívidas de países como Portugal e criar mecanismos que compensem estes estados dos prejuízos causados pela política cambial do euro sobre o seu desenvolvimento económico.

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