sábado, 7 de setembro de 2013

Brincar com o fogo


Talvez devesse esperar um pouco mais para escrever isto. A última morte de um bombeiro acaba de ser noticiada e os ânimos continuam muito exaltados. Porém, nós somos assim, exaltamo-nos ao sabor da espuma dos dias e depois deixamos os temas morrer. E depois morre mais gente, e depois exaltamo-nos outra vez, e depois o tema volta a morrer e volta a morrer mais gente.

Este ano morreram muitos bombeiros. Quase todos voluntários, senão mesmo todos, se prestarmos alguma atenção. Entre notícias de mortes, correu o apelo: amanhã, dirija-se à corporação de bombeiros mais próxima e preste a sua homenagem a estes heróis. Sem dúvida, heróis. Homenagem, discordo. Por regra, evito associar-me a movimentos de manada. Correspondem mais a fenómenos de imitação em que o instinto é deixado à solta  do que a actos reflectidos de cidadãos que sabem quem são e o que querem. E não, não somos todos bombeiros. Nunca somos todos isto ou aquilo. Somos todos diferentes. E, ainda que fossemos todos bombeiros, e não somos, há bombeiros e bombeiros, bombeiros voluntários e bombeiros profissionais.

Não correspondi ao apelo do euro que alguém sustentou todos nós deveríamos ir entregar à corporação mais próxima o mais rapidamente possível. Não fui porque o meu euro serviria para alimentar um modelo que não quero alimentar. Não fui por não querer continuar a ver pessoas sem qualquer formação a quem fornecem uma farda que não protege como deveria e põem uma mangueira na mão para depois os lançarem às chamas. Não é o hábito que faz o monge, também não é a farda e a mangueira que fazem o bombeiro. O monge não corre perigo de vida. O bombeiro corre-o. Já morreram oito este ano e continuam outros tantos hospitalizados em Estado grave.

Dir-me-ão, e estou completamente de acordo, que se não houvesse voluntários não haveria gente em número suficiente para combater os fogos. É precisamente aqui que queria chegar. O Estado que é gordo nas PPP, nos SWAP, nos BPN é demasiado magro nesta função que é sua e só sua. E os últimos dois anos, que foram anos de injecções de largos milhares de milhões de euros no sector financeiro, foram anos de cortes orçamentais que afectaram as corporações de bombeiros profissionais. As "poupanças", termo utilizado pelo Governo e pela sua imprensa aos cortes que no caso dos bombeiros já somam oito mortes como sua contrapartida, obrigaram à supressão de horas extraordinárias, à transferência de serviços de corporações de bombeiros sapadores e municipais, bombeiros especializados e com formação,  para  corporações de voluntários e os bombeiros profissionais foram objecto das reduções salariais que foram aplicadas em toda a Administração Pública.

Um euro, então, para quê? Para fortalecer a ideia de que um trabalho especializado pode ser assegurado por voluntários sem formação sequer para avaliarem o perigo? Para fortalecer o miserabilismo doentio que valoriza o trabalho gratuito como sacrifício redentor de pecados financeiros cometidos por terceiros, entre os quais alguém que enriquece com o aluguer de meios aéreos de combate aos fogos? Para financiar corporações que servem de trampolim para voos autárquicos a caciques locais e de onde há fundadas suspeitas que o dinheiro sai para financiamentos partidários à margem da lei? Para ajudar a pagar os 10 euros diários que recebem os jovens desempregados que depois são lançados às chamas de mangueira na mão? Um euro para brincar com o fogo, não, obrigado.

3 comentários:

Claudio Almeida disse...

Concordo plenamente com estas palavras... Infelizmente morre muita gente anualmente e sem nada mudar. Temos de ser unidos para forçar um socorro profissional e n para incentivar os interesses de alguns. Voluntariado sim, mas como complemento a um socorro profissional.

mariamoreira disse...

Caro amigo, concordo com muito do dito no seu texto mas discordo em absoluto com a referência que faz à falta de formação de bombeiros que vão para o teatro de operações.
Tenho na família elementos bombeiros e conheço de perto a exigência relativa à formação e preparação dos mesmos para a acção. Nenhum pode intervir sem prévia e adequada preparação. No entanto tenho de concordar completamente com a referência feita à falta de apoio e de meios que se verifica por quem de direito.







































Filipe Tourais disse...

A preparação é insuficiente e os equipamentos de protecção pessoal deixam muito a desejar, tal como o número de mortes infelizmente confirma. Os voluntários são bombeiros apenas no depois de um dia inteiro nas suas profissões. Os municipais e sapadores são bombeiros a tempo inteiro, recebem formação e treino físico como profissionais que são e têm equipamentos que os voluntários não têm. Nem podem.