segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Porque Deus quer


O Estado gasta quase quatro vezes mais no combate aos incêndios florestais do que na prevenção. A Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) indica que este ano o dispositivo de combate aos fogos tem um custo previsto de 74 milhões de euros, enquanto o Ministério da Agricultura e do Mar estima que vai gastar perto de 20 milhões na prevenção estrutural. Uma aberração destas presta-se a comentários como “burros”, “irresponsáveis”, “criminosos”. Porém, o aluguer de meios aéreos é negócio que enriquece bons amigos, tal como os licenciamentos de construção que nunca seriam concedidos em áreas por arder, e tal como a madeira semi-ardida, que se torna  muito mais acessível para quem compra. Considerando estas variáveis, os burros não serão exactamente os mesmos que poderiam identificar-se à primeira vista e a irresponsabilidade criminosa assume proporções de atrocidade, mais ainda por haver mortes a lamentar. Detrás da tradição do centrão, mandam os que lá estão. E perder votos por manifesta falta de vontade política para prevenir incêndios é fenómeno nunca visto. É assim porque é assim, arde porque Deus quer.

Vagamente relacionado: «“Quatro das cinco empresas que integram o consórcio vencedor do concurso do Sistema Integrado das Redes de Segurança e Emergência de Portugal (SIRESP) foram alvo de várias buscas da Polícia Judiciária, ordenadas pelo procurador-geral adjunto Azevedo Maia. O ex-procurador-geral da República Souto Moura encarregou aquele magistrado do Ministério Público de esclarecer os contornos do negócio que os ex-ministros da Administração Interna e das Finanças, Daniel Sanches e Bagão Félix, respectivamente, assinaram três dias após as eleições legislativas de 2005. O objectivo é apurar se houve ou não tráfico de influências e acesso indevido a informação privilegiada.» (Novembro de 2006) 

Ainda mais vagamente: «As possibilidades que, ao que consta, estão sobre a mesa são: a) a empresa Heliportugal, pertencente a um grupo francês, que vendeu em 2006 os 10 helicópteros ao Estado, que tem um contrato de manutenção com custos muito acima do mercado e cujo litígio daqui decorrente com a EMA foi recentemente resolvido a seu favor; esta empresa aparenta ter hoje um estatuto particularmente favorável, quer na resolução do litígio com a EMA, quer na alocação dos 15 helicópteros ligeiros no combate a incêndios em que a mesma ditou um adiamento da adjudicação devido a dívidas à Segurança Social; b) a Helisul, empresa pertencente a um grupo espanhol (INAER), e detentora de 5 helicópteros alugados ao INEM, já no passado condenada por cartel nos contratos de combate a fogos florestais; c) a OMNI, empresa integrada na holding Sociedade Lusa de Negócios e em cuja administração se encontra como vogal o dr. Dias Loureiro.» (Novembro de 2011)

Mesmo nada relacionado: Desde o início deste mês já morreram quatro bombeiros no combate a incêndios florestais ou na sequência de ferimentos na luta contra o fogo. Pedro Passos Coelho considera que essas mortes não podem ser imputadas directamente a qualquer factor, sejam eles a falta de formação, de investimento ou de desleixo. (27 de Agosto de 2013)

1 comentário:

fb disse...

O Estado gasta quase quatro vezes mais no combate aos incêndios florestais do que na prevenção. A Autoridade Nacional da Protecção Civil (ANPC) indica que este ano o dispositivo de combate aos fogos tem um custo previsto de 74 milhões de euros, enquanto o Ministério da Agricultura e do Mar estima que vai gastar perto de 20 milhões na prevenção estrutural. Uma aberração destas presta-se a comentários como “burros”, “irresponsáveis”, “criminosos”. Porém, o aluguer de meios aéreos é negócio que enriquece bons amigos, tal como os licenciamentos de construção que nunca seriam concedidos em áreas por arder, da mesma forma que o preço da madeira semi-ardida se torna muito mais acessível para quem compra. Considerando estas variáveis, os burros não serão exactamente os mesmos que poderiam identificar-se à primeira vista e a irresponsabilidade criminosa assume proporções de atrocidade. Detrás da tradição do centrão, mandam os que lá estão. E perder votos por manifesta falta de vontade política para prevenir incêndios é fenómeno nunca visto. É assim porque é assim, arde porque Deus quer.