segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Luxos


«Em Portugal, apenas 22,4% da população residente faz turismo. Em termos médios, entre os que viajam durante quatro ou mais noites, apenas 3,9% se deslocam ao estrangeiro. Os restantes, 16,7%, ficam cá dentro. Os dados são de 2011, os mais recentes compilados pelo Eurostat. A comparação com os países membros da União Europeia atira-nos para o penúltimo lugar numa lista de 27, apenas à frente da Bulgária, onde a percentagem de residentes a fazer turismo é de apenas 17,5%.» O título desta notícia é, em si mesmo, todo um manifesto: «Turismo é um luxo que só chega a22,4% dos portugueses». E o turismo não é, não era, nunca foi um luxo. As políticas de criação do desemprego necessário para generalizar salários baixos e o roubo de subsídios de férias e de Natal a funcionários do Estado e reformados é que tornaram o turismo um luxo ao alcance de cada vez menos portugueses. Não seria luxo nenhum elevar salários a patamares de decência, tal como não seria luxo nenhum ver a riqueza melhor distribuída de forma a que, em vez de luxo, o turismo pudesse ser um motor de criação de bons empregos. Outra comunicação social, menos comprometida com poderes perfeitamente identificáveis, ao invés de vender o turismo como um luxo, não teria dificuldade alguma em apontar como luxo a insistência na austeridade que vai concentrando a riqueza e destruindo tudo à sua passagem. A nossa até se dá ao luxo de chamar “arco da governabilidade” ao conjunto dos três partidos da austeridade e dos negócios sujos que vêm transformando em luxos não apenas o turismo, também direitos elementares como Saúde, Educação, Cultura e protecção na velhice e no desemprego. E este luxo conduz-nos a outros: 60% de portugueses dão-se ao luxo de não contrariarem as escolhas dos 4 em cada 5 dos restantes 40% que continuam a dar-se ao luxo de confiar o seu voto a este arco da patifaria. E que luxo de patifarias.


Vagamente relacionado: A agência que coordena os processos de privatização na Grécia perdeu dois presidentes em menos de seis meses. Desta vez, Stelios Stavridis foi forçado a demitir-se depois de a imprensa grega noticiar que o responsável viajou num jacto privado de um empresário que comprou uma empresa pública na vaga de privatizações exigida no memorando de entendimento da troika. Para não despertar o receio de que o caso pode comprometer o processo de privatizações previsto no programa de resgate financeiro à Grécia, Yannis Emiris, responsável executivo da HRADF, assegurou que tudo corre dentro da normalidade. “Não haverá atrasos no programa”, disse à Reuters.

Ainda mais vagamente: de acordo com os dados disponibilizados pelo Ministério das Finanças alemão,, graças à quebra verificada nas taxas de juro sobre a sua dívida pública  durante a crise das dívidas soberanas na zona euro, a Alemanha vai pagar menos 40,9 mil milhões de euros relativamente ao inicialmente previsto em juros entre 2010 e 2014. No dia seguinte, numa acção de campanha eleitoral, o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble (CDU), admitiu a necessidade de um terceiro resgate para a Grécia.

E nada a ver com: Os funcionários portugueses trabalham, em média, mais uma hora por semana relativamente à média dos trabalhadores da União Europeia, segundo o estudo «Oportunidades laborais e satisfação no emprego», elaborado pela Adecco e realizado a partir dos dados do Eurostat. Assim, os portugueses trabalham 41,3 horas semanais, face à média da UE, de 40,4 horas. Portugal é o segundo país na lista dos 27 Estados-membros onde se passa mais tempo no trabalho. Em primeiro estão os ingleses, com 42,3 horas semanais. Atrás dos portugueses surgem os polacos e romenos, com 41 horas semanais. Na cauda da tabela, os turnos mais curtos são na Suécia (39,9 horas), França (39,4 horas), Holanda (39 horas) e Itália (38,7 horas). Os portugueses trabalham em média mais uma semana por ano do que o resto dos europeus.

1 comentário:

RB disse...

"Thanassis Kanaoutis, de 19 anos, não pagou o bilhete de 1,20 euros para uma viagem de autocarro, foi apanhado por um inspector, com quem teve uma discussão, e morreu quando a sua cabeça embateu no pavimento. A sua morte pode ter sido acidental. Mas, num país devastado pela crise e pela austeridade, o sucedido tornou-se num grave facto político capaz de atormentar o primeiro-ministro e de lançar uma nova vaga de críticas à troika e ao ajustamento que impôs aos gregos." Mas como sabemos este não é caso único, muito longe disso. Nos países afetados pelas políticas de austeridade cega e brutal, multiplicam-se as situações de desespero ou simplesmente de risco, determinadas pela necessidade de sobreviver sem dinheiro. Um dia os responsáveis por esta cegueira serão julgados como responsáveis morais por tanta desgraça. Mas é preciso correr com eles mais cedo, já que os julgamentos da História tardam sempre a consumar-se.