segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Isto ainda não é tudo deles




No Sábado passado, a estátua do cónego Eduardo Melo foi colocada no centro da rotunda junto ao cemitério municipal à má fila, dois dias depois de os promotores da homenagem terem anunciado o adiamento da sua inauguração. A obra foi autorizada em Maio pela Câmara de Braga, numa votação que mereceu os votos favoráveis dos vereadores da maioria do PS e a abstenção dos eleitos do PSD e do CDS.

Desde então, o silêncio do PS tem sido absoluto, começando pelo seu líder, e António José Seguro foi eleito precisamente por Braga, passando pelas referências Mário Soares e Manuel Alegre , até ao militante de base mais  famoso, Tino das Rãs. E todo este silêncio apesar das muitas insistências, em especial as que Francisco Louçã tem dirigido semanalmente no seu espaço de comentário político às Sextas-feiras a António José Seguro. Dir-se-ia que o PS se transformou numa associação com fins lucrativos que dispõe de uma claque de fanáticos do poder que apoia qualquer coisa, incluindo estátuas a bombistas assassinos amigos de Salazar e de  Franco.

Foi contra esta desforra do fascismo, interpretada pelo PS de Braga e não repudiada oficialmente por ninguém do partido, que mais de uma centena de cidadãos se manifestou esta tarde junto ao bronze da provocação. Todos os portugueses com valores e com memória lhes ficam a dever o gesto que salvou a vergonha nacional da indiferença total que evitaram. Isto ainda não é tudo deles, nem aproveitando que o país está a banhos. Fica ainda a faltar a homenagem devida a um bombista com estátua e aos seus admiradores, mas a seu tempo será. Por mais que tentem convencer-se do contrário, o bronze também voa.


2 comentários:

fb disse...

Foi contra esta desforra do fascismo, interpretada pelo PS de Braga e não repudiada oficialmente por ninguém do partido, que mais de uma centena de cidadãos se manifestou esta tarde junto ao bronze da provocação. Todos os portugueses com valores e com memória lhes ficam a dever o gesto que evitou a vergonha nacional da indiferença total que evitaram. Isto ainda não é tudo deles. Fica a faltar a homenagem devida a um bombista com estátua e aos seus admiradores. A seu tempo será. Por mais que eles tentem convencer-se do contrário, o bronze também voa.

de Fabian Figueiredo disse...

Quantas estátuas se ergueram neste país sem inaugurações, celebrações, anúncios, portos de honra, discursos e outras pompas e circunstâncias de ocasião? A resposta é clara, poucas certamente, e para ser honesto, creio mesmo que nenhumas.

Os responsáveis pela sua colocação, leia-se patronato paroquial e o Partido Socialista, sabiam que o teriam de fazer nas costas da cidade. Caso contrário, a estátua voltaria para o repouso onde esteve desde 2002, um armazém em Gaia.

O fogo lançado sobre sedes de partidos e organizações de esquerda, a repressão que as recém-nascidas organizações de trabalhadores foram alvo, a perseguição a todos aqueles que ousaram levar o espírito de Abril mais a norte e as bombas, as malditas bombas, que levaram o Padre Max e a jovem Maria Lurdes Correia, todas estas memórias e recordações tenebrosas encarregar-se-iam de relembrar que em democracia não há espaço para homenagear quem em sua profunda oposição construiu a sua obscura rede de poder.

Sim, o cónego Melo viveu, ergueu-se e impôs-se contra a República democrática e o seu sistema constitucional. Como militante de extrema-direita encarregou-se de construir e apoiar organizações terroristas, como o ELP (Exército de Libertação de Portugal) e o MDLP (Movimento Democrático de Libertação de Portugal) de Spínola, e de garantir que na sua zona de influência o paroquialismo, a subserviência e o ultraconservadorismo da velha senhora se mantivessem como regra.

O seu legado é uma pura ovação ao “deus, pátria, família”, não sendo, por isso, novidade que se tenha oposto a todos os democratas. Num comunicado, o ELP, organização que tutelava em parceria com o ex-subdiretor da PIDE Barbieri Cardoso, agradecia “a todos aqueles que, no CDS, PPD (atual PPD/PSD), PDC, igrejas, paróquias, bancos, etc., ou em iniciativas de carácter privado, têm apoiado a nossa justa luta, criando um clima propício para a nossa entrada em ação com o fim de limpar o País de todos os cães comunistas e traidores, que nos tentam impedir de sermos o que sempre fomos e de dispormos de nós como muito bem entendemos”.

Esse mesmo panfleto de Agosto de 1975, trazia ainda um peculiar agradecimento a Soares, onde se podia ler “és um tipo porreiro! Fica prometido que terás bandeira a meia-haste quando morreres... com um tiro na nuca!"

Por tudo isto, ninguém estranhou quando foi aprovado em 2008 um voto de pesar do CDS pelo falecimento do sacerdote, que os deputados do Bloco de Esquerda em companhia com alguns do PS e do PSD, como Manuel Alegre, João Soares, Emídio Guerreiro ou mesmo o atual ministro da Administração Interna Miguel Macedo, na altura deputado eleito por Braga, tenham abandonado o hemiciclo em protesto.

Tal como ninguém se surpreende que o Partido Socialista em Braga tenha feito de tudo para que esta estátua conhecesse a luz do dia – andou onze anos a batalhar por isso - mesmo com a contestação sublime da direita local, que se absteve na votação sobre a sua colocação, e com o profundo repúdio da esquerda política e social.

A decisão só mereceu, sendo digno de nota, o apoio entusiástico do PNR. Pouco lhes importa, Mesquita Machado muito lhe deve, isso ninguém nega.

Mas, o que pensam António José Seguro, deputado eleito por Braga, e a direção nacional do Partido Socialista? Onde está a voz forte dos autointitulados “socialistas democráticos”, quando se ergue uma estátua a assassinos e fascistas? O sermão da força democrática, que tanto gosta de dar repetidamente à sua esquerda, ficou-se pelo silêncio cúmplice?

Para que não existam dúvidas, a onda de protesto contra a colocação da estátua e o legado do cónego é património de todos os democratas, exclui-se quem quer. A história encarregar-se-á do julgamento.