sexta-feira, 5 de julho de 2013

Um Governo, um Presidente, duas demissões


Cavaco Silva apostou tudo numa estabilidade alicerçada numa coligação instável e na instabilidade permanente que esta foi oferecendo aos cidadãos e às empresas. Apostou tudo na manutenção de um Governo de garotos que empurrou o país para uma autêntica catástrofe económica e social. Foi Cavaco Silva que aguentou um Governo de loucos furiosos que sempre exerceu o poder contra tudo e contra todos, incluindo a Constituição da República que Cavaco Silva jurou cumprir e fazer cumprir. Foi Cavaco Silva que sempre se pôs ao lado do Governo, inclusivamente contra o Tribunal Constitucional. Foi Cavaco Silva que sempre alinhou na conversa do está tudo a correr bem quando toda a gente via que estava tudo a correr muito, mas mesmo muito mal. Foi Cavaco Silva que ignorou os recordes sucessivos do desemprego, o ritmo cada vez mais rápido a que as empresas fechavam portas, foi Cavaco Silva que não viu nada de estranho nos fracassos sucessivos do Governo na frente orçamental, foi Cavaco Silva que viu a dívida pública a crescer a um ritmo alucinante. E foi Cavaco Silva que teve a irresponsabilidade de responder a tudo isto e ao mais que não cabe nestas linhas tecendo comentários vagos sobre o mar e sobre a forma ordeira como as vaquinhas vão para a ordenha.
Cavaco Silva diz agora que o segundo resgate se tornou mais provável nos últimos dias. Apenas nos últimos dias. Nada a ver com dois anos de derrapagens orçamentais sucessivas que catapultaram a dívida pública para níveis estratosféricos que exigem novo empréstimo que pague os anteriores. Nada a ver com dois anos de fracassos sucessivos da obediência austericida do Governo dos garotos que sempre apoiou incondicionalmente ter destruído a capacidade produtiva da economia para gerar riqueza. Nada a ver com a sua aposta ter falhado. Nada a ver com se ter furtado a intervir como era seu dever. Necessitaremos de um segundo resgate apenas devido à má impressão causada pelo espectáculo degradante dos últimos dias junto de mercados que, pintados como eles os pintam, ignoram todos os indicadores económicos para fundamentarem a confiança e a credibilidade que lhes merece cada economia. E Cavaco Silva volta a não ter qualquer responsabilidade na palhaçada a que assistimos nos últimos dias.
Por mais voltas que dêem, o Governo não tem quaisquer condições para se manter em funções e não lhe resta outra alternativa que não a de demitir-se, mas o país também não aguenta continuar sem Presidente da República. Cavaco nunca esteve à altura do cargo que ocupa. É o responsável maior da maior tragicomédia a que alguma vez assistimos em tempos de democracia. Cavaco está a mais. Obviamente, demita-se também. Que vá tratar das vaquinhas.

3 comentários:

Mariposa Colorida disse...

Mas ainda alguém dá credibilidade ao cavaco silva?

e soares disse...

ESTÁ CLARO O FALHANÇO DA POLÍTICA QUE CEE/FMI NOS IMPUSERAM POR INTERMÉDIO DO PPD/CDS E DESTE PR.NINGUÉM SE ATREVE A SUGERIR QUE FORAM OS COMUNISTAS QUE OBRIGARAM GASPAR A ESCREVER A SUA CONFISSÃO DE IMPOTÊNCIA POLÍTICA. O RESTO SÃO TRETAS OU BARRETES QUE CAVACO ENFIA DIA A DIA NA SUA FALTA DE VISÃO POLÍTICA. MAS QUEM ELEGEU UNS APÓS OUTROS ESTES ENERGÚMENOS ??? NÃO SE SABIA QUE CAVACO NUNCA SERIA IMPARCIAL PORQUE SE DEFENDE MELHOR COM O PESSOAL DO PPD/BPN ? NÃO SE SABIA QUE CAVACO SÓ TEM O DISCURSO DO GRANDE CAPITAL ESCONDIDO EM TIRADAS BANAIS DE PROFESSOR DA ECONOMIA BURGUESA E A-SOCIAL E ANTI-HISTÓRIA, PORVENTURA ALICERÇADA EM MILAGRES ALEATÓRIOS?
ENTÃO, AGORA GRAMAMOS ... SE AO MENOS ABRÍSSEMOS OS OLHOS !!!

De José Manuel Pureza (no DN) disse...

"Não é por haver crise política que haverá segundo resgate da troika. É por estar aí o segundo resgate da troika que a crise política está aí. O que falhou não foi o entendimento político entre as direitas coligadas. O que falhou - estrepitosamente - foram as políticas de empobrecimento encaradas como promessa de regeneração económica e social. Não tiveram outro resultado senão o empobrecimento sem mais. E a dívida, em nome de cuja diminuição tudo se fez e tudo se exigiu, não parou de subir. Foi isso - e não a defesa coerente da legalidade constitucional por quem cumpre fazê-lo num Estado de direito - que fez demitir o primeiro-ministro de facto Vítor Gaspar. Assim como o que fez demitir Paulo Portas foi a perspetiva do vendaval social que o corte de 4700 milhões de euros na despesa pública, de que é guionista investido, acarretará sem outros efeitos senão os da destruição da economia e da sociedade.

O Governo morreu porque a sua política o matou.

Virá agora o segundo resgate, há muito inevitável. Negando-o, o Governo antecipou-o sucessivamente atirando as responsabilidades para o Tribunal Constitucional, para os partidos da oposição ou para os sindicatos. A dança de demissões dos últimos dias mostra que nunca houve outra causa para o segundo resgate senão a política de teimosia irresponsável do Governo em matéria económica e social.

Por isso é que é tão irrelevante a troca de sms entre Passos e Portas sobre a substituição do ministro das Finanças e tão importantes os telefonemas e conversas pessoais dos administradores dos bancos portugueses com dirigentes da coligação governamental para os pressionar para que se abjure qualquer cenário de eleições. Aquela é do domínio do folhetim dos estados de alma, estes são exercício de política dura.

Esse jogo político palaciano e dissimulado tem como contraponto a incredulidade e a repulsa da grande maioria das pessoas. Se necessário fosse, os últimos dias mostraram que na governação ditada pela troika vale literalmente tudo desde que o resultado nunca seja a expressão democrática da vontade popular. Desde que se cumpram os desígnios de quem manda, todas as fórmulas de poder são boas. Neste regime de administração colonial, ao vice-rei exige-se não que represente o seu povo e que por ele seja reconhecido como legítimo governante, mas sim que represente o verdadeiro soberano e submeta o povo. Assim está a ser em Portugal, pela mão de gente formada na pior política pelas jotas. E o espetáculo desta política feita por jogadores da política sem outra vertebração ideológica senão a de agradar a quem manda está a degradar até ao limite o apoio popular à nossa democracia. Ora, se isto não é um funcionamento não regular das instituições democráticas, então eu não faço ideia do que isso possa ser."