quarta-feira, 10 de julho de 2013

Salve-se quem puder


Cavaco acaba de falar ao país. Começou com a conversa habitual da credibilidade, da responsabilidade, do sentido de Estado, do interesse nacional e de outras tantas interpretações livres de palavras e expressões hoje completamente desvirtuadas no sentido. Quando toda a gente esperava que desse o golpe de misericórdia ao país e anunciasse o seu apoio à não solução que lhe foi apresentada por Pedro Passos Coelho e Paulo Portas, quando toda a gente esperava ouvir que não convocaria eleições antecipadas, Cavaco fez ainda pior e anunciou que apenas viabilizará um acordo de regime a alcançar entre os três partidos que assinaram o memorando, um acordo que assegure "estabilidade", não apenas até às eleições que combinarão entre os três para data posterior ao final do programa de "ajustamento", Julho de 2013, como também depois dessas eleições.

Assumindo como premissa de partida que Cavaco não está tão louco ao ponto de ter dado um tiro no escuro  sem previamente ter obtido garantias de aceitação da sua proposta, há pelo menos três conclusões imediatas a retirar de mais este episódio que atesta como a loucura não tem limites e como o poder em Portugal não poderia realmente estar em melhores mãos.

A primeira, que enquanto andava para aí a teatralizar a exigência de eleições antecipadas, António José Seguro desenvolvia negociações paralelas para encaixar o seu partido no poder e nos negócios do poder. Agora se entende o mutismo dos deputados do PS na Comissão de Negócios Estrangeiros, naquela que seria a despedida de Paulo Portas: não lhe dirigiram a mais mínima observação sobre a sua decisão de brincar com milhões de vidas utilizando a palavra "irrevogável". Agora se entendem também as posições tomadas nos últimos dias por algumas figuras sinistras do PS, como é o caso de José Lello, que se manifestou contra a realização de eleições antecipadas alegando não estarem hoje reunidas as tais condições de "governabilidade" que reflectem a visão aritmética que estes partidos têm da política.

A segunda, que pelo menos durante mais um ano teremos três partidos, que nas eleições de há dois anos obtiveram mais de 80% de lugares no Parlamento mas que em eleições realizadas hoje de forma alguma os obteriam, a usarem este poder, hoje ilegítimo, para prosseguirem as políticas que aceleraram a destruição do país nos últimos dois anos com ainda mais 4700 milhões em cortes cegos. Cavaco Silva acaba de sentenciar o SNS que nos garantia segurança em situações de doença, o elevador social do Ensino público universal e de qualidade, a Segurança Social que ainda nos punha a salvo da esmola, a estabilidade no emprego mínima que tivemos até agora. Cavaco Silva acaba de decretar um aumento exponencial do desemprego, o encerramento de ainda mais pequenas e médias empresas, novos recordes da dívida pública, a privatização do que resta privatizar, a concentração de riqueza, um crescimento ainda maior do número de milionários em Portugal, que aumentou nos últimos dois anos como nunca antes. Cavaco acaba de consumar a desforra com o 25 de Abril há tanto sonhada.

Finalmente, a terceira, que Cavaco Silva e os três partidos do arco da austeridade prevêem voltar a transformar as próximas eleições numa mera divisão de poder entre os três. Isto reflecte o respeito que não lhes merece, nem podia merecer-lhes, um povo que, fizessem o que fizessem, nunca soube usar o voto para punir as suas traições e os seus desgovernos sucessivos. Cavaco tem boas razões para acreditar que nas próximas eleições, sejam elas quando forem, os portugueses irão agradecer a estes três partidos pela devastação hoje ainda inimaginável que seguramente deixarão atrás de si. Pode ser que as contas lhes saiam furadas. A palavra foi devolvida ao povo. Mas agora será pior, terá que ser na rua. Terá que ser a rua a correr com eles. Ou então, adeus. E salve-se quem puder.