terça-feira, 23 de julho de 2013

Os santos não pecam


Foi comovente ouvir os discursos do Papa Francisco e da Presidente Dilma Rousseff na estreia do primeiro em visita ao país da segunda. Sintonia perfeita dos dois chefes de Estado contra as desigualdades no mundo e contra a austeridade que vai dizimando presentes e roubando futuros a milhões de pessoas, ideias que me são bastante caras, como saberão os que por aqui vão passando.

Porém, existe outra assinalável sintonia que esvaziaria de significado o discurso mais consistente, que até nem foi o caso do discurso de nenhum dos dois: a sintonia quanto a quem pagaria a conta, se os cofres de um Estado riquíssimo como o Vaticano, se os de um país como o Brasil, onde, apesar dos enormes progressos durante os mandatos de Lula da Silva, a grande maioria da população continua a não auferir salários que permitam saber o que é comer carne ou peixe, vá lá, todas as semanas, onde apenas há Saúde e Educação de qualidade para uma reduzidíssima minoria e onde as tais desigualdades citadas nos discursos de ambos atingem proporções épicas.

E foi o pobre que pagou a visita do rico. O rico Francisco apostou tudo desde a primeira hora na imagem que quer dar ao mundo do Papa mais humilde da História do Vaticano e aceitou mancomunar-se com Dilma no assalto que juntos fizeram aos impostos que os brasileiros pagam por serviços públicos que não têm e, quando não são engolidos pela corrupção, acabam frequentemente derretidos em espectáculos futebolísticos ou religiosos com dimensões faraónicas. A humildade da visita do Papa ao Brasil custará cerca de 40 milhões de euros. Os brasileiros protestam nas ruas. Têm toda a razão. Francisco e Dilma mangam da sua pobreza e, para cúmulo, e cúmulo da hipocrisia, derramando discursos carregados de moralidade contra e sobre essa mesma pobreza. É dose. E também seria pecado, não fosse Francisco o santo Papa. Os santos não pecam.

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