segunda-feira, 22 de julho de 2013

O festival do disparate (sem pausas)


Para variar, não vão os portugueses desabituar-se, A ressaca do epílogo do festival do disparate presidencial de ontem está a ser novo festival do disparate. Aliás, é o mesmo, já tem uns anos, mas renova-se todos os dias.

Assim, a imprensa inicia a semana a martelar a assimilação da sugestão de Cavaco Silva de uma democracia determinada por mercados que marcam eleições e definem as orientações da política económica nacional. Não há televisão, rádio ou jornal que não festeje o regresso das bolsas ao “verde” e a descida dos juros no mercado da dívida, embora o país e a grande maioria dos portugueses não ganhem rigorosamente nada com as variações no valor a que os papeis mudam de mãos na bolsa e apesar de Portugal não estar a recorrer ao mercado da dívida a que se referem por estarmos sob “assistência financeira” da troika. Esquecem-se de referi-lo.

À boleia desta comunicação social que serve tão nobres ideais, Pedro Passos Coelho iniciou a semana a martelar a ideia, também sugerida por Cavaco Silva, da necessidade da união de todas as forças partidárias em torno da agenda política que, apesar de estar a destruir o país, diz ele que encanta os mercados e reforça a confiança que têm em nós. O nosso Pedro invoca o realismo para dizer que a austeridade é o que é – uma enorme verdade, tudo é o que é – e justificá-la com não termos dinheiro para mais: temos para pagar os contratos leoninos das PPP que não quer anular, temos para as vigarices em modo SWAP que pelas suas mãos até fazem ministras, temos para juros agiotas impagáveis que se recusa a renegociar, mas para “mais”, Saúde, Educação, protecção social, Cultura, para “mais” é que não temos.

E diz que nos últimos dois anos só gastámos aquilo que temos. Nem de propósito, ao mesmo tempo que o dizia, o EUROSTAT, organismo europeu que mede a realidade pelo mundo real e não pelo que vão dizendo os aldrabões, divulgava o sexto maior aumento da dívida pública relativamente ao PIB da UE na comparação de trimestres sucessivos, quarto maior aumento comparando trimestres homólogos: a dívida pública portuguesa aumentou para 127,2% do PIB no primeiro trimestre, contra 123,8% registados no trimestre anterior, 112,3% observados um ano antes e os 100,1% que se registavam quando Pedro Passos Coelho e Paulo Portas foram empossados.

A dívida pública aumentou 27,1% em dois anos porque as forças partidárias não estiveram unidas? Pedro Passos Coelho jura que sim e vai repetindo a ideia de que uma dívida que aumentou como nunca durante o seu mandato é um sucesso que não nos podemos dar ao luxo de esbanjar. Tudo isto repetido à exaustão em todos os telejornais, radiojornais e reproduzido em todas as publicações electrónicas, sem que nenhum líder daquela oposição que se queixa da comunicação social a convoque para a conferência de imprensa que se impunha que dessem àquela hora do "sentido de Estado" para desmontarem todo este festival do disparate. A credibilidade ganha-se e perde-se nesta guerra de percepções.


 

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