domingo, 7 de julho de 2013

"Insurrección en el limbo de Guantánamo", no El Pais de hoje


O artigo do El Pais que abaixo reproduzo continua, não está completo. Dei-me ao trabalho de traduzir grande parte dele por duas ordens de razões. A primeira, obviamente, pelo terror relatado. A segunda, por corresponder a uma tipologia de jornalismo de investigação que deixou de ver-se do lado de cá da fronteira. Tentei ser o mais fiel possível na tradução da linguagem precisa e sem rodeios em que foi redigido no original, tão diversa da que é utilizada em Portugal por uma classe de profissionais de um jornalismo que entretém em vez de informar, à qual tenho dificuldade em chamar de jornalistas. Durante a semana que passou, como escrevi aqui, depois de ter dado livre trânsito a aviões com prisioneiros para Guantánamo na década passada, poucos dias depois de saber-se que os Estados Unidos espiam países europeus, a já tradicional subserviência aos Estados Unidos da diplomacia portuguesa voltou a envergonhar-nos enquanto povo ao negar passagem ao avião doPresidente boliviano Evo Morales ao arrepio de toda a legislação internacional que Portugal firmou de livre vontade e que nos obriga a mínimos de decência. É natural que com a espécie de jornalismo que se faz por cá as reacções a esta cumplicidade com um regime criminoso não tenham sido de vulto. Não se descreveu com mínimos de objectividade, não se enquadrou com o mínimo de imparcialidade, não aconteceu. Nesta, como noutras matérias, o poder conta com uma classe de amansadores para comandarem as percepções e para entorpecerem as consciências. A forma apática com que a generalidade dos portugueses seguiu a tragicomédia da última semana, e uma grande maioria nem sequer seguiu de todo, é o resultado de um coma metodicamente induzido com grande mestria e habilidade durante anos a fio. Em terra de cegos, quem tem olho é Rei. Os nossos sentem-se no paraíso. A semana que passou foi o cúmulo de todos os cúmulos. E ainda não vimos nada.

 

 

«A identidade de quem acede ao interior do campo 5 e do campo 6 - todos os números de campos inferiores a estes são já passado e o campo 7 é secreto – é preservada de forma escrupulosa. Os jornalistas deixam as suas credenciais na guarita da entrada. Os soldados arrancam do seu uniforme o velcro que os identifica pelo apelido e os guardas – polícias militares – apenas ostentam um número como identificação. No teatro do absurdo em que se transformou o centro de detenção de Guantánamo, os soldados que prestam assistência médica aos detidos naquela base naval norte-americana em território cubano fazem-se chamar por nomes retirados de obras de Shakespeare. Assim, a psiquiatra é Dionísia (retirado de "Péricles, príncipe de Tiro"), que confessa, ingénua, não saber as razões  que levam os réus a solicitar os seus serviços de saúde mental.

Malvólio, Feste e Orsino (de "Noite de Reis") são enfermeiros do contingente que o Pentágono foi obrigado a enviar há um mês para corresponder ao número cada vez maior de alimentações forçadas que estão a ser ministradas naquele presídio em consequência do número também cada vez maior de presos em greve de fome. Oficialmente, são 104 de uma população total de 166 reclusos, de acordo com dados recolhidos na semana passada, quando este jornal foi autorizado a realizar uma visita guiada de cinco dias à polémica prisão que os Estados Unidos abriram em terra estrangeira para poderem violar à vontade um número significativo de leis, entre as quais a Convenção de Genebra, que garante direitos aos prisioneiros de guerra.

Quando passam poucos minutos das quatro da madrugada, reina um silêncio absoluto no campo 6. Aproxima-se a oração das cinco, a qual, devido à redacção de um guião grotesco, se permite que seja escutada pelos jornalistas, como se as rezas dos prisioneiros fosse um espectáculo de tartarugas na desova ou  como se se tratasse da exibição da chegada do último urso panda a um zoo. Em paralelo, os guardas, a maioria entre os 19 e os 21 anos, meninos ainda quando se deu o ataque de 11 de Setembro e George W. Bush iniciou a sua guerra contra o terrorismo, preparam os pequenos-almoços, dos quais mais de uma centena acabarão no lixo.

Zak é o "conselheiro cultural". Fala com os presos uma vez por mês. Diz que não comem para evitarem o desejo sexual.

"Em Guantánamo estão os melhores homens da Nação servindo o seu país", diz o Coronel Bogdan. "As nossas ordens são cumprir as normas que se aplicam nas prisões federais dos Estados Unidos e alimentar à força os prisioneiros em greve de fome que estejam em piores condições", assegura um dos médicos em frente ao posto de saúde exclusivo para os réus (os militares da base são tratados num hospital diferente). "Até que recebamos ordens em contrário, esta prática não vai ser alterada, não permitiremos que nenhum detido morra de fome", assegura este membro da Marinha que salpica o seu discurso com a frase: "Eu cumpro ordens. Aqui tudo se faz dentro da mais absoluta legalidade", explica. E reforça  a sua tese com o seguinte argumento: "a minha mãe telefona-me assustada por tudo o que lê sobre Guantánamo e eu apenas posso tranquilizá-la dizendo-lhe: 'mamã, eu estou orgulhoso do que faço aqui', diz este homem na casa dos cinquenta anos.

O que este comandante da Marinha faz pelo menos duas vezes todos os dias com a ajuda de outro militar é atar a uma cadeira desenhada especialmente para esse efeito o preso a alimentar, que vai até ali pelo seu próprio pé ou arrastado à força. Uma vez atado, é-lhe colocada uma máscara sobre a cara que impede que possa mover a boca, em especial morder ou cuspir. Até aqui é apenas a primeira etapa.

A segunda começa com a aplicação nas fossas nasais de um lubrificante cirúrgico - "também pode ser azeite", observa o comandante apontando um frasco de plástico cheio de um líquido viscoso de cor verde – antes de introduzir um tubo pelas fossas nasais. De acordo com os advogados dos detidos, os seus clientes queixam-se que este procedimento lhes provoca dor intensa e que não conseguem deixar de lacrimejar, uma vez que nesta zona do corpo humano  existem muitas terminações nervosas.

O enfermeiro de turno relata em oito segundos o que acontece logo a seguir, embora os relatos dos presos descrevam esta fase do procedimento como uma agonia que parece que nunca mais vai acabar. A terceira fase inicia-se com a descida de um tubo cirúrgico pela garganta até ao estômago, o que dificulta a respiração e produz uma sensação que muitos descrevem como de afogamento.

A quarta etapa começa pela aplicação de um tubo ao nariz com uma fita para evitar que o preso o morda e, quando o tudo está devidamente seguro, é utilizado para introduzir no preso 750 ml de uma substância rica em nutrientes. Para mitigar as náuseas e evitar inchaços no preso, neste líquido é muitas vezes adicionado um fármaco conhecido por "Reglan", que tem como efeitos secundários de longo prazo sintomas semelhantes aos provocados pelo  Parkinson.

"O processo dura ao todo 20 minutos", assegura o militar fardado que descreveu o desagradável processo com uma frialdade cirúrgica. "Posso garantir que não é doloroso, eu próprio o experimentei em mim mesmo", explica este segundo sargento que, como todos os demais, pratica o anonimato e apenas se lhe conhece a denominação " MED-OIC" (Pessoal médico - oficial em funções).

 

Sobre Guantánamo apenas se sabe uma parte da história, aquela que as autoridades militares querem contar e que, num gesto de transparência circense, publicitam com as visitas ao presídio, uma mancha indelével no historial de direitos humanos dos Estados Unidos. A imprensa não tem acesso aos presos, 86 dos quais obtiveram visto para poderem sair da ilha e permissão para serem transferidos para países terceiros, embora os dias passem sem que nada suceda. Alguns deles estão detidos há mais de dez anos sem que tenham sido acusados do que quer que seja. Dos 166 detidos que ainda restam - em meados da década passada chegaram a ser cerca de 600 –, 151 estão qualificados com a etiqueta "baixo valor". Apenas seis estão à espera de julgamento: um é o alegado responsável pelo ataque à bomba ao porta-aviões USS Cole no ano 2000 num porto do Iémen, Abd al Rahim al Nashiri, e os restantes cinco são os presumíveis responsáveis pelos ataques terroristas de 11 de Setembro. (...)» – " Insurrección en el limbo de Guantánamo", no El Pais de hoje.

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