sexta-feira, 5 de julho de 2013

Enquanto nos entretêm com a bolsa


Nos últimos dias, a comunicação social tem feito o seu papel semeando o medo entre os portugueses, ora bombardeando com um crash bolsista num dia com pouco movimento, que recuperou imediatamente no dia seguinte e que apenas afectou quem sabe que ao jogar dinheiro na Bolsa se arrisca a perder, ora com a subida dos juros da dívida num mercado ao qual, enquanto estivermos sob resgate,  em princípio  Portugal apenas recorrerá caso haja vantagens, ou seja, quando os juros praticados nesse mercado sejam inferiores aos juros do empréstimo contraído junto da troika. Actualmente, são mais do seu dobro.
A nossa comunicação social oferece as notícias de um mundo virtual mais convenientes para forçar os portugueses a aceitarem a continuidade de um Governo sem credibilidade alguma para se manter em funções, ao mesmo tempo que, com o mesmo propósito, passa por cima de notícias do mundo real que, por envolverem decisões que comprometem, e muito, o futuro da grande maioria dos portugueses, seria do interesse de todos que fossem conhecidas. É o caso de uma das últimas decisões criminosas de Vítor Gaspar enquanto ministro das Finanças, datada do dia em que pediu demissão na segunda-feira e tomada conjuntamente com Pedro Mota Soares (CDS), uma portaria que força o fundo de reserva da Segurança Social (FEFSS) a comprar até cerca de quatro mil milhões de euros de dívida pública nacional a preços actuais nos próximos dois anos e meio, até final de 2015. Na portaria, assinada em conjunto com o ministro da Segurança Social do CDS, lê-se que “entende o Governo que o FEFSS deve desinvestir em activos de outros Estados da OCDE por contrapartida da aquisição de dívida pública portuguesa”. Em Maio, o Diário Económico já havia noticiado estas intenções.

Vítor Gaspar e Pedro Mota Soares quiseram forçar o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (FEFSS) a investir em dívida pública para além do razoável, “não diversificando o suficiente a carteira de investimentos”, ficando assim altamente exposto ao risco de bancarrota, de uma reestruturação da dívida ou da saída do país da zona euro.

O FEFSS é a reserva de dinheiro que serve para pagar pensões e outras prestações sociais caso o sistema entre em colapso. Segundo os últimos dados oficiais, actualmente terá autonomia para pagar apenas oito meses de pensões, bastante abaixo do que prevê a lei de bases da Segurança Social, que fixa um mínimo de dois anos. O FEFSS, recorde-se, vem acumulando perdas de milhares de milhões desde a governação Sócrates, momento a partir do qual, como tive oportunidade de aqui destacar,  começou a ser aplicado em produtos de alto risco, inclusivamente naqueles paraísos que oferecem aos criminosos a vantagem de poderem fazer desaparecer dinheiro sem que nunca se chegue a saber para os bolsos de quem. O Tribunal de Contas há longos anos que se recusa a validar as contas da Segurança Social.

3 comentários:

Ricardo disse...

E parece que todos aqueles que podiam e deviam reagir a isto tudo que estamos a ver se demitem de o fazer(falta de coragem,por conveniência etc),e não falo daqueles no parlamento pois esses não passam de papagaios.

Filipe Tourais disse...

Não, caro Ricardo, os políticos não são todos iguais. Mais do que nunca, precisamos daqueles que sempre nos defenderam no Parlamento. Não é boa ideia descredibilizá-los, até porque não o merecem.

Ricardo disse...

Eu não disse que eram todos iguais,uns são de uma cor e outros de outra.Mas a questão essencial é que a solução não está no parlamento por muita boa vontade que possa haver da parte de alguns.