sexta-feira, 12 de julho de 2013

Em vésperas de segundo resgate


Na noite de Quarta-feira, a comunicação de Cavaco Silva colocou um dilema: ou o Presidente teria obtido garantias de viabilização da sua proposta junto dos líderes dos três partidos do nosso rotativismo e, nesse caso, a sua não solução seria um facto quase consumado, ou o Presidente teria enlouquecido de vez e, alegando a tal responsabilidade que nas bocas deste arco significa invariavelmente o seu contrário, se mandava de cabeça para uma aposta de alto risco que acrescentaria uma componente presidencial a uma trapalhada já com proporções épicas.

Várias declarações de alguns dirigentes do PS, entre elas uma de Francisco Assis à entrada para a reunião de emergência do Secretariado Nacional do PS, “situação do país exige ponderação de várias soluções”, todas elas vestidas da mesma semântica barroca que costumam empregar antes de tomadas de decisão que subvertem compromissos anteriores, foram deixando sinais de que tudo poderia acontecer.

Mas eis que termina a reunião do Secretariado Nacional e é tornado público um comunicado no qual o PS, mantendo a “abertura para o diálogo” que sempre ornamenta as suas comunicações, se demarca de qualquer solução de Governo que não passe por eleições. O país respirou de alívio, embora sem perder de vista o novo significado da palavra “irrevogável”. O PS percebeu que se aceitasse a boleia proposta por Cavaco repartiria com os seus parceiros de memorando os custos políticos de um desgaste proporcional à aceleração da decomposição do país incluídos nos 4700 milhões de euros previstos em cortes para os tempos mais próximos. Hão-de invocar o tal “sentido de Estado” e de “responsabilidade” tão próprios desta semântica, também aquele toque de respeito pela democracia que sempre utilizam quando estão na oposição. Mas não é nada que surpreenda. É o PS.

Afastada a colaboração do PS, quase garantida a colaboração de PSD e CDS para qualquer solução que evite as eleições que os arredaria do poder, somos então confrontados com a loucura de Cavaco Silva. Temos um Presidente da República aventureiro. E a aventura que propôs foi uma suspensão da democracia, diz ele que para evitar um segundo resgate, hoje dado como mais que certo, não por causa da instabilidade política ou da imagem que esta projecta nosmercados, um segundo resgate que se torna necessário pela instabilidade que a austeridade que querem manter a todo o custo provocou sobre a vida das pessoas e sobre a economia. Desde que o actual Governo assumiu o poder, foram destruídos quase meio milhão de empregos, a taxa de desemprego explodiu de 12,1% para 17,8%, o investimento implodiu quase 30%, e o PIB registou um trambolhão de 6,3%, ao mesmo tempo que a dívida pública disparou dos 100,1% do PIB que se verificavam em 2011 para os quase 130% que se verificam actualmente. O défice orçamental do primeiro trimestre batia nos 10,6% do PIB. E eles querem continuar com isto.

O regime agoniza numa encruzilhada de absurdos. O Presidente da República não quer que os portugueses possam escolher democraticamente um novo rumo para os seus destinos. A Presidente da Assembleia da República não quer que o povo possa entrar livremente na casa da democracia. O Primeiro-ministro e o seu putativo vice querem continuar a afastar os portugueses dos serviços públicos que pilham, dos empregos que destroem, da estabilidade de vínculos laborais que tornam cada vez mais precários e da qualidade de vida que minam ao promoverem salários cada vez mais mínimos. O presumível próximo Primeiro-ministro sabe que para chegar ao poder não necessita de assumir o compromisso que sempre negou de rompimento com a troika e com a austeridade que destrói o país. Tudo porque os portugueses temem um segundo resgate, tal qual temiam o primeiro, tal qual hão-de temer o terceiro. A semântica do regime elogia esta cobardia como “a grande coragem dos portugueses”. A cobardia que nos tem reféns dos nossos carrascos. A cobardia que os perpetua no poder. A cobardia que adia os resgates que realmente importa fazer acontecer o mais depressa possível: o resgate da democracia e o resgate dos nossos destinos. Sem eles, nada. E o resto é conversa fiada. O segundo resgate vem já a seguir, depois o terceiro, o quarto e o quinto. Eles não vão parar até que sejam parados.

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