terça-feira, 16 de julho de 2013

Dois mundos


Os indicadores de privação material baseiam-se num conjunto de nove itens representativos das necessidades económicas e de bens duráveis das famílias, como não ter capacidade para pagar de imediato uma despesa inesperada, atrasos nos pagamentos de prestações ou despesas correntes, não poder fazer uma refeição de carne ou de peixe de dois em dois dias ou não ter electrodomésticos ou telefones. Em 2012, mais de dois milhões de pessoas, 21,8% dos residentes em Portugal viviam em privação material, mais 0,9 pontos percentuais do que no ano anterior (20,9%), revelava o Inquérito às Condições de Vida e Rendimento das Famílias ontem tornado público pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

Outro relatório, também ontem divulgado pela Autoridade Bancária Europeia, revelava que em 2011 Portugal tinha 11 banqueiros com rendimentos anuais superiores a um milhão de euros e que, num só ano, Cada um destes onze magníficos auferiu, em média, 1,6 milhões de euros , um valor equivalente a 236 anos de salários mínimos que coloca Portugal no oitavo lugar de um ranking de 19 países liderado por Reino Unido, França e Alemanha seguidos pela Espanha, em quarto lugar. A Espanha, um país cuja banca está sob resgate, tinha 125 magníficos. A Irlanda, outro país onde a delinquência banqueira também empurrou o país para a austeridade, tinha 21. Portugal e Grécia, nas mesmas condições de resgate ao sector financeiro, tinham respectivamente 11 e 10 magníficos.

A ponte entre os dois relatórios é feita quer por uma austeridade bastante selectiva promovida por uma plutocracia que se tem conseguido impor pelo medo e pela desinformação, que põe os mais pobres a pagar resgates ao sector financeiro e fecha os olhos ao carnaval de salários e de prémios que este continua a proporcionar aos responsáveis por décadas de gestões criminosas, quer por uma regulação que não passa de um mito. Falhando sistemática e repetidamente a tão apregoada regulação, ganha cada vez mais sentido a auto-regulação.

Há uns meses, na Suíça, foi votada em referendo a fixação de um salário máximo múltiplo do salário mínimo. Sem prejuízo da nacionalização da banca que ocorrerá mais cedo do que tarde, assim que ocorram as auditorias que os Governos europeus e os poderes de Bruxelas têm evitado como podem, a existência de um salário máximo faz cada vez mais sentido. Para além de permitir ultrapassar a questão dos salários e prémios decididos em causa própria por administradores de empresas tanto financeiras como não financeiras, obrigá-los-ia, e aos poderes públicos que comandam, a melhorarem a vida dos que menos têm sempre que quisessem melhorar a sua. Por outro lado, a melhor distribuição do rendimento proporcionaria um aumento do consumo, das receitas fiscais, da criação de emprego, do crescimento económico. O combate às desigualdades não é uma mera batalha ideológica ou apenas uma questão de justiça social. É, acima de tudo, uma questão a abordar do ponto de vista da racionalidade económica.

2 comentários:

Anónimo disse...

Só para esclarecer que na Suiça não se votou salários máximos coisa alguma, mas limitações aos vencimentos de membros de orgãos sociais de empresas cotadas e maiores poderes dos pequenos accionistas em termso de remunerações dos mesmos.

O Jorge Jesus pode continuar a ganhar mais do dobro de um "magnífico" médio por mais algum tempo.

Filipe Tourais disse...

No projecto original figurava umm tecto salarial máximo equivalente a 12 vezes a remuneração mínima, que na Suíça varia de sector para sector.