sábado, 6 de julho de 2013

A normalidade, os monstrinhos e os monstros


«Se há monstros físicos, não haverá monstros mentais ou psíquicos? A cara e o corpo podem ser perfeitos; mas se um esperma deficiente ou um factor hereditário produzem monstros físicos, porque não hão-de produzir almas disformes? Os monstros não passam de variações em grau mais ou menos elevado das normas usuais. Se uma criança pode nascer maneta, uma outra pode nascer sem bondade ou sem consciência. Um homem que perde os braços num acidente é obrigado a lutar durante muito tempo para se adaptar à sua nova configuração, mas aquele que nasce sem os braços só sofre com a sua singularidade. Como nunca teve braços, não lhe fazem falta. Às vezes, a criança imagina o que seria ter asas, mas o que imagina não corresponde certamente ao que sente o pássaro em voo. Ao monstro, o normal deve parecer monstruoso, visto que tudo é normal para ele. E para aquele cuja monstruosidade é apenas interior, o sentimento deve ser ainda mais difícil de analisar, visto que nenhuma tara visível lhe permite comparar-se aos outros. Para o homem nascido sem consciência, o homem torturado pela consciência deve parecer ridículo. Para o ladrão, a honestidade não é mais que fraqueza. Não esqueçam que o monstro não passa duma variante e que, aos olhos do monstro, o normal é monstruoso.» - in "A leste do paraíso", de John Steinbeck (1952)

 

Vagamente relacionado: assim que se viu Cardeal, D. Manuel Clemente  defendeu imediatamente a continuidade da monstruosidade que tem enchido as igrejas portuguesas de novos pobres em busca de migalhas e de um lugar no paraíso. A nova ministra das Finanças garantiu que todos os contratos SWAP foram liquidados, mas o relatório da Storm Harbour mostra que pelo menos seis destas monstruosidades ainda apresentam risco de reembolso antecipado. Os monstrinhos assistem pela TV com toda a normalidade à maior monstruosidade em tempos de democracia, sem reacção ao que fazem os monstros que os empurram um pouco mais para Leste do que um dia fomos, para muito longe do que um dia poderemos voltar a ser. Quando os monstrinhos aprenderem a ser gente, os monstros nunca mais voltarão a sentir que estão no paraíso.

Sem comentários: