domingo, 16 de junho de 2013

Solidariedades


A brutalidade que marcou as últimas duas semanas na Turquia subiu ainda mais de tom neste fim-de-semana, com o regime a usar da sua polícia de choque para reprimir selvaticamente as manifestações em Istambul e Ankara. Nas redes sociais lê-se sobre o uso de armas químicas e jactos de água ácida sobre os manifestantes. A informação tem sido ignorada pelos meios de comunicação dos países da NATO, a que a Turquia pertence, e da União Europeia, a que quer pertencer, que se limitam a noticiar o recurso a meios tão legítimos e absolutamente normais como pontapés, bastonadas, balas de borracha e gás pimenta.

O silêncio dos representantes europeus tem sido igualmente uma constante ao longo destas duas semanas. Nem uma palavra de condenação. É como se não estivesse a acontecer rigorosamente nada na Turquia. Pelo menos um jornalista, português, por sinal, foi alvo da violência dos trogloditas que o regime turco pôs nas ruas a calar um protesto que rebentou com o anúncio da captura de um parque público pela predação imobiliária, mas que já vinha em crescendo devido ao complemento de moralidade que costuma acompanhar enriquecimentos imorais feitos de apropriações do que é público por clientelas próximas do poder, no caso, a restrição do consumo de bebidas alcoólicas e a proibição de certas manifestações de afecto entre casais na via pública.

As mesmas moralidades e imoralidades também andam a trabalhar juntas em Portugal. O Governo anda muito ocupado a vender serviços públicos a preços de saldo e a pôr funcionários públicos a trabalhar à borla mais uma hora por dia e a "requalificá-los" para um despedimento colectivo sem justa causa. O Ministério dos Negócios Estrangeiros está nas mãos de um moralista ligado a negócios bastante submarinos. A indignação alastra por toda a população. O silêncio que o Governo português ofereceu às duas semanas de brutalidade da responsabilidade dos seus colegas turcos justificam-se hoje mais do que nunca. Nunca se sabe se um dia destes não necessitarão também de idêntica solidariedade.

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