terça-feira, 11 de junho de 2013

Sobre os "comendadores" da República

«(…) As comendas e condecorações são os restos de uma sociedade aristocrática adaptados à República. (…) Entre os comendadores da República temos dezenas de "zés das medalhas", que subiram à custa de esquemas e foram comprando os favores do poder político com apoios financeiros a partidos e candidatos. Gente mais ou menos obscura de quem a comunidade dificilmente se pode orgulhar. E também alguns artistas cuja relevância apenas resulta do apoio político que deram, a dada altura, a um determinado candidato. Se a comenda faz a honra do comendador, então o comendador também desonra a comenda.
No "Dia do Comendador", intelectuais orgânicos do regime, políticos-banqueiros, autarcas corruptos, patos bravos espertalhões e membros vitalícios das mais diversas comissões de honra misturam-se com empresários honestos, artistas competentes, escritores talentosos e jornalistas independentes, todos demasiado vaidosos para se esquivarem a estas cerimónias fúnebres, em que Fernando Ruas não se distingue de Nuno Júdice e Hélder Bataglia se confunde com José Gomes Ferreira.
Tal como existem, estas distinções limitam-se afagar a vaidade de quem aspira ao estatuto de "personalidade" ou à eternidade com certificado público. E a juntar o trigo e o joio. Julgam os homenageados que lhes é prestado um tributo. Pelo contrário, são eles que prestam tributo ao poder que lhes pendura umas bugigangas ao peito. E que espera, em troca deste alimento para o ego, que se mantenham mansamente "respeitáveis" para merecerem o elogio de quem manda.» - Daniel Oliveira, no Expresso.

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