terça-feira, 18 de junho de 2013

O Brasil na lotaria dos protestos


O Brasil está a viver o período de maior convulsão social das últimas décadas. Mais de 100 mil saíram à rua no Rio de Janeiro, pelo menos 65 mil em São Paulo, 20 mil em Belo Horizonte, 15 mil em Porto Alegre, 5 mil em Brasília e mais uns largos milhares em outras cidades de Norte a Sul do país como Fortaleza, Maceió e Belém do Pará. Em grande parte dos casos, as manifestações foram tudo menos pacíficas, com cenas de autêntica guerrilha urbana, invasão de edifícios públicos e destruição de automóveis e lojas. Muita violência, quer da responsabilidade de manifestantes, quer da própria polícia.
Tudo começou com um aumento das tarifas dos transportes públicos, que já não sofriam alterações desde 2011, de apenas 20 centavos de Real, cerca de 7 cêntimos de Euro. E nenhuns 7 cêntimos empurram 240 mil pessoas para a rua, muito menos com a violência dos últimos dias, ou então os protestos parariam após a notícia do cancelamento do aumento. E não pararam, aumentaram
O Brasil do crescimento económico continua a ser um país com enormes assimetrias sociais e regionais. Há quem vá trabalhar de helicóptero e quem não tenha sequer uma bicicleta. A concentração de riqueza prefere defender-se gastando milhões em segurança privada a fazer chegar a prosperidade aos mais pobres entre os pobres que, sem nada a perder, matam por meia dúzia de reais. No Brasil, ainda se morre por não haver uma ambulância suficientemente próxima para acudir a um acidente de viação. Ainda se morre por haver ambulância mas não haver combustível. A Saúde e a Educação de qualidade são um privilégio de uma elite que pode pagar seguros de saúde caros e maus e colégios privados com uma qualidade função do valor da propina que cobram. Os hospitais públicos são poucos e maus. Em muitos não existem sequer lençóis nas camas e não existem camas para todos. As escolas públicas oferecem uma qualidade muito deficiente, com escolas degradadas onde sempre falta tudo e com professores com habilitações demasiado mínimas cuja boa vontade é, em muitos casos, a única característica que supera largamente o salário de miséria que recebem quando há dinheiro para lhes pagar. Há regiões do Brasil em que o analfabetismo ultrapassa os 20%. O Brasil é mais um exemplo de país rico cheio de pobres.
Os brasileiros, aqueles que se manifestaram, aproveitaram o momento em que o mundo tem os olhos postos na Taça das Confederações para reclamarem mais direitos sociais e menos futebol. As conquistas espectaculares ao nível social alcançadas ao longo do mandato de Lula abrandaram depois da eleição da Presidente Dilma que, bastante mais à direita do que o seu antecessor, cortou na despesa social e no investimento público. O crescimento económico, como tal, abrandou. Aproveitaram os seus adversários políticos. Se Dilma Rousseff politicamente se posiciona bastante à direita de Lula da Silva, a mesma Dilma Rousseff está na extrema-esquerda do que desejariam os seus detractores. E são eles que detêm os meios de comunicação social que comandam as percepções.
No Brasil, a informação, sobretudo a televisiva, foca-se sobretudo em notícias sobre crimes, cada um deles explorados ao máximo com uma moralidade à prova de desigualdades para transmitirem a necessidade de um Estado mais musculado. Os sucessos de Dilma no combate à corrupção foram usados contra si, apesar de ter sido inflexível até mesmo em casos que envolveram membros do seu Executivo. O mesmo no que diz respeito ao combate à evasão fiscal e nas enormes melhorias ao nível da eficiência e da eficácia da Receita Federal.
Numa das minhas últimas viagens ao Brasil, surpreendi-me ao ver um enorme painel colocado numa das principais artérias de uma grande cidade, onde quem por ali passava podia visualizar uma simulação dos milhões em impostos que são cobrados a cada segundo que passa em todo o Brasil. Alguém com muito dinheiro pagou para ali colocar um painel em tudo idêntico aos que são colocados nos casinos com a indicação do jackpot que alicia os jogadores. Deixei-me ficar a observar a reacção das pessoas. Garanto que não vi ninguém aliciado. Quem investiu na mensagem da “asfixia fiscal” tão do agrado dos neoliberais deu por bem empregue o seu dinheiro. Um povo pouco politizado é facilmente manipulável. E quem pagou o painel não lhe colocou uma legenda a dizer “são os impostos que pagam os serviços públicos que desejas”. Seria óptimo que as manifestações dos últimos dias abrissem caminho para um Brasil menos desigual, com Saúde, Educação e protecção social dignas para todos. É sempre bom ver uma democracia a subir os degraus do progresso. Mas os brasileiros são um povo muito pouco politizado. E o populismo anda por ali. O resultado é uma lotaria. A Presidente Dilma que perceba que não pode contentar-se em fazer o Brasil crescer, tem que fazê-lo crescer para todos. Ou então o Brasil regressa às mãos daquela malta dos "ajustamentos" que sempre o pôs a render para uma pequena minoria.

(actualizado)

3 comentários:

Anónimo disse...


País do Burro é Portugal, não o /brasil, aqui nunca hoiuve uma alemanha a nos dar dinheiro.

Filipe Tourais disse...

Não teve a Alemanha, mas teve o FMI. E nem a Alemanha deu dinheiro a Portugal, nem o FMI o deu ao Brasil. Cobram juros altos e promovem políticas desastrosas que aumentam ainda mais os custos desse dinheiro. O Brasil começou a crescer quando correu com o FMI. Portugal acentuou a sua regressão quando caiu nas mãos da troika. E ponha lá de lado esse "Brasil é melhor do que Portugal" e viceversa, que isto não é blogue para burros.

DO disse...

O crescimento económico e algumas políticas sociais mínimas, mas bem sucedidas, da última década, mudaram a realidade social brasileira. Um país composto por uma pequena elite milionária e uma multidão de miseráveis passou a ter uma pujante classe média. E a classe média é a chave da exigência democrática. Sem a autonomia financeira da burguesia e sem a dependência social dos pobres, sem os privilégios dos ricos e o desespero dos miseráveis, sempre foi ela a linha avançada da defesa do Estado Social, da transparência na política e da democracia. E a classe média brasileira cresceu. Cresceu muito.

Com o crescimento da classe média, que é quem se está a manifestar nas grandes cidades, a democracia amadureceu. Ficou mais exigente. O PT já não se pode ficar pela mera distribuição de dinheiro, que o milagre económico permitiu. Nem pode lidar com a contestação como os coroneis e ditadores do passado lidavam com o próprio PT. Os brasileiros estão preparados, porque têm hoje mais formação, informação e ambição, para passar para outra fase: a do desenvolvimento sustentado, a da democracia plena, a de serviços públicos de qualidade, a de um Estado que respeita as liberdades públicas e combate a corrupção, a de uma polícia que se rege pela lei e pelo respeito pelos direitos humanos. E não aceita calado que o mesmo Estado que esbanja dinheiro no Mundial aumente o preço dos transportes públicos. Quer que a riqueza seja canalizada para o futuro e não para os bolsos de milionários e corruptos, os maiores beneficiários de obras faraónicas que deixam pouco para os investimentos que realmente distribuem a riqueza por todos: a saúde, a educação, os transportes e infraestruturas públicas.

Não é possível conquistar mais democracia sem lutar por uma redistribuição mais igualitária da riqueza, na qual o Estado Social e os serviços públicos desempenham um papel central. Não, a questão não é apenas saber se há mais ou menos dinheiro. O Brasil não teria crescido se não tivesse distribuído um pouco melhor a riqueza e não tivesse criado um mercado interno pujante. E não estaria a exigir transportes públicos decentes e uma gestão transparente dos dinheiros do Estado se não tivesse distribuído o seu dinheiro por uma nova classe média, mais informada e exigente.

O nosso Estado Social não está a definhar por falta de dinheiro para o financiar. Está a definhar porque a crescente desigualdade económica na Europa está a enfraquecer a sua principal base de apoio: a classe média. Se permitirmos que este processo continue espera-nos o passado brasileiro. Um passado onde a democracia era uma ficção. Onde a inexistência de uma classe média forte dava às elites e ao Estado que as servia um poder discricionário. É por isso que a luta central é por mais igualdade. A única que garante uma maioria social que trave os abusos, defenda a democracia e exija a dignidade.

O Brasil vive um momento fundamental da sua história: ou dá agora o salto ou volta para trás. A Europa vive um momento fundamental da sua história: ou trava agora a queda ou perde o que conquistou. E a chave, nos dois lados, é a classe média. Quem a trata como privilegiada, perante a dificuldade dos pobres, não percebe que está a criar o caldo social e político em que os pobres nunca deixarão de o ser.