quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dois anos depois

Governo garante direitos adquiridos a funcionários públicos despedidos” já seria uma boa frase para assinalar a vitória eleitoral do PSD faz hoje precisamente dois anos, após uma campanha eleitoral marcada por uma série enorme de promessas que foram sendo quebradas a partir do preciso momento em que foram conhecidos os resultados das eleições de 5 de Julho de 2011. Entre essas promessas estava a de que não haveria despedimentos na Administração Pública. Dois anos depois, o Governo fala em “direitos adquiridos” para celebrar o segundo aniversário no poder. O direito a ser despedido que todos os funcionários públicos adquiriram no exacto momento em que essa fraude eleitoral se converteu em poder. O direito a ver roubados subsídios de férias e de Natal, o direito a cortes salariais, o direito a reduzir pensões de reforma e subsídios de desemprego e tantas outras conquistas consumadas nesse dia. Um dia em que os vencedores não adquiriram o direito a suspender a democracia e o Estado de direito. A frase também ilustra bem os dois anos de permanente conflito institucional que o Governo promoveu desde o primeiro dia e que o Presidente da República sempre permitiu.
Economia portuguesa recuou 4% no primeiro trimestre” é Outra frase do dia que serve na perfeição para assinalar esta data. Inclui o buraco cada vez maior para onde o Governo mais obediente de toda a Europa vem empurrando o seu país, ao mesmo tempo que faz coro com o ocupante externo para repetir que está tudo a correr bem, indiferente ao desemprego que vai ajudando a crescer como nunca com investidas sucessivas sobre direitos laborais e salários e aumentando os impostos sobre os rendimentos do trabalho. Foram dois anos sempre a perder, cada vez mais e cada vez mais rapidamente. Dois anos ao longo dos quais Vítor Gaspar não acertou uma única previsão.
Porém, não um cataclismo para todos. Foram dois anos de injecções de vários milhares de milhões no sector financeiro sem que o Governo tenha sequer exigido como contrapartida o controlo dos poderes públicos sobre os bancos intervencionados. Foram dois anos de prosperidade para os donos dos colégios com contrato de associação, que viram o financiamento por turma aumentado, ao mesmo tempo que o Governo reduzia o financiamento às escolas que são propriedade do Estado e decidia aumentar o número de alunos por turma. Foram dois anos de privatizações ao desbarato, outra promessa quebrada, incluindo privatizações de empresas de importância estratégica como é o caso da EDP, cuja última fase de privatização foi realizada a um preço de 2,35 euros por acção e que hoje, dia do aniversário destes dois anos de saque, já depois da distribuição de dividendos, cotava a 2,49 euros por acção: uma valorização de 6% em menos de quatro meses dá uma ideia do que o Governo deu a ganhar com este negócio, simultaneamente do que pôs todos os portugueses a perder. Um roubo que sempre o foi desde o início, a somar a tantos outros que fariam deste texto uma lista interminável.
E ainda faltam dois anos. Ainda há privatizações de serviços públicos em fila de espera. Ainda há direitos laborais por pulverizar. Ainda há despedimentos por decretar. Ainda há salários e pensões de reforma onde cortar. Ainda há empresas por encerrar. Ainda há portugueses indiferentes ao alastramento da fome e da miséria. E ainda há cidadãos para quem ser “boa pessoa” é não querer saber de política, não manifestar o seu descontentamento, e, sobretudo, evitar qualquer proximidade com aquela esquerda de palavra que sempre esteve ao lado do povo e necessita dos seus votos para melhor os defender. Temos imensos motivos para celebrar este 5 de Junho. Para que seja o último com este Governo em funções e para que o próximo dia de todas as escolhas não sirva outra vez apenas para mudar de aldrabão. O rotativismo definitivamente não serve. Ao menos que estes dois anos de chumbo sirvam de aprendizagem. Foi um curso intensivo. A democracia é para ser usada por todos, para benefício de todos.

1 comentário:

Anónimo disse...

Parece que a dimensão do roubo ainda não é suficiente para fazer mudar os portugueses.